Natureza Morta

O Segundo Exemplo

Por Vitor Velloso

Crítico convidado pela Mostra de Tiradentes 2020

Colônia, colônia, colônia. A fala pausada que ferve o sangue do ser repousado na tenda da projeção duvidosa, evoca os europeus como quem acasala com as páginas encharcadas de um navio que traz o estoicismo classicista de uma arte que definha em decadência com as ondas de sódio que nos lembra que um dia tudo vai ruir.

A direção é de Clarissa Ramalho. O filme se baseia em textos de pausas longas para soar brevemente mais filosófico, poético. Acaba perpetuando um academicismo canhestro que consegue retirar metade da pessoas presentes no Cine-Tenda durante a projeção. Retrógrado e anti dialético, “Natureza Morta” é tudo que a proposta temática desta edição da Mostra de Cinema de Tiradentes, em tese, deveria repudiar. A questão pictórica de determinados planos, remonta à facilidade do esquecimento dos mesmos. Isso não por ser plasticamente falho, mas extremamente reverencial e burocrático na construção dramática que propõe. A “masturbação focal” de elegância e exuberância de uma história que se venera acaba gerando um dos planos mais flácidos do cinema brasileiro em 2020, qual seja, um onde Helena Ignez caminha por uma calçada. Plano à lá Orson Welles, com as luzes atravessando as árvores.

Paciência para aguentar imagens de puro preciosismo referencial é o cumulo da necessidade do trabalho. Para cada vez que se retorna à uma cena para que haja construção narrativa mínima, a vinda tardia da desgraça monumental é exigida pelo público. É triste ver em “Natureza Morta” um ator como Rômulo Braga sendo subutilizado gravemente pelo filme, por exemplo.

A cada citação e burocratização do texto fílmico, percebe-se a tentativa de estar o tempo inteiro gerando uma conceituação lírica de necessidades interiores de expurgo de absolutamente nada. Páginas e páginas de literatura elevada à imagem que não dá conta de sustentar essa relação inexistente que o projeto tanta força. O histerismo de determinadas cenas se relaciona bem com essa temática colonial e colonizada – e é aqui que nasce um dos problemas mais graves. A dicotomia que é gerada por essa tentativa da correlação apenas enfraquece qualquer forma de argumentação que possa vir a ser utilizada.

Essa necessidade constante do cinema brasileiro de dar um passo atrás com essa veneração do texto é o principal motivo desse atraso formal que estamos vivendo. Desejos formalistas ou estruturalistas que recorrem à palavra para se ausentarem da política cinematográfica que é exigida pelo Brasil, mantém nossa prática de estar sempre vivendo na sombra de nossa História. Porém, negar um passado que é lírico, mas que berra em verve brasileira, é assumir que o derrotismo político é uma realidade diante da revanche cinematográfica que um dia vivemos. Sem vincular às lembranças do nosso passado como um mar de rosas e conquistas, apenas, positivas, é importante que haja um distanciamento quanto a práticas como essas. Não que o projeto não possua aval de ser realizado, claro, mas significa que um setor do cinema ainda urge por detrás da mesa.

Com uma decupagem que busca organizar em blocos e aprofundar algumas urgências de linguagem através da diferenciação no plano de dois direcionamentos diferentes – seja utilizando o posicionamento no quadro ou de objetos – “Natureza Morta” praticamente faz jus ao nome no sentido mais fúnebre e mórbido possível. A primeira palavra (natureza) foi abandonada assim que se assume uma potência na postura rígida e contundente em sua abordagem.

A Mostra Aurora torna a expor as fragilidades de um setor específico das produções cinematográficas tupiniquins. Todavia, ao invés de implorar a mudança, apoia a construção de um imaginário fixo e regularizado de filmes que devem ser aprovados por um grupo seleto, recheados de clichês e problematizações históricas que mais soam revisionismo e arquétipo de tudo aquilo que não se deve fazer em prol de cinema que seja mais livre.

Por fim, não há exatamente o que se escrever sobre uma obra onde há tanto escrito e pouco dito, terminando por abrir espaço para que sua imagem circule entre as palavras que tanto louva durante a projeção. As desistências corriqueiras durante a exibição de “Natureza Morta” não negam. Infelizmente, a construção que se faz de um imaginário da Mostra acaba se tornando um suspiro brevemente desesperado por algum Olhar Livre que situe de maneira mais sólida o que se esperar de um ano.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *