Mulan

Qualidade que conhecemos

Por Vitor Velloso

Disney+

“Mulan” de Niki Caro é um dos casos curiosos do mercado de cinema do ano pandêmico. Lançamento turbulento, adiado para conseguir chegar ao mercado Chinês com força ímpar e todo um compilado de situações que transformam um filme convencional em algo amplamente debatido pela indústria.

A obra é o pretexto da infiltração mercadológica, um imperialismo cultural mambembe que se travesti de entretenimento inofensivo. E para se estruturar nessas articulações políticas e econômicas, o longa constrói diversas concessões em sua estrutura, sempre buscando uma aliança mais ampla com setores da sociedade que a Disney vem tentando formalizar apoio (exemplo de todas as tentativas peçonhentas em Star Wars). Porém, se “Mulan” se inicia com esse pretexto, rapidamente se prepara em torno do formulaico, do tacanho. É uma estrutura dramática que já vimos diversas vezes no cinema, com tentativas de representação, da gigante do mercado, em aproximações com negligências monumentais que vimos ao longo dos anos. O projeto é mal intencionado do início ao fim, onde parece encontrar forças para tentar mascarar todas as peçonhas históricas da Disney. É um balaio de falsidades múltiplas. Os graus apelativos que se desenham durante a maior parte do projeto, são abandonadas em seu conluio imediato com o liberalismo e um patriarcado findado na própria moral desse capitalismo de representação.

A linguagem está em consonância com essas forças de dominação do capital, formalizando representações que estão a serviço das funcionalidades desse mercado. É uma obra que se curva às exposições para tornar-se didática a partir de suas próprias falhas internas na misancene, onde existe uma confusão generalizada nessa encenação, mas que busca sempre uma plasticidade para se reafirmar enquanto produto de entretenimento de alta padronagem. “Mulan” é o projeto norte-americano para seu imperialismo constante, mas esbarra em questões basilares enquanto procura um esqueleto para se guiar. Acaba seguindo todas as fórmulas clássicas na estrutura narrativa e não consegue convencer nos efeitos especiais, que são datados, feios e criam uma distração que foge a mera artificialidade.

Para os fãs da animação, o projeto também soa frustrante, pois as necessidades de fingir respeito à cultura chinesa, transformou parte dos personagens queridos em uma memória distante. Algumas dessas decisões acabam sendo acertadas, porém o longa não se firma na própria proposição e não consegue achar o caminho entre a fantasia, as cenas de ação, seus dramas e suas intenções em aproximar dessa representação em consonância com a representatividade. Mas como um “bom” projeto Disney, isso é realizado a partir de um atravessamento ideológico e neoliberal que se materializa na própria forma cinematográfica, neste caso uma consciência de fragilidades múltiplas que vão se somando. A questão dos efeitos especiais mostra o descuidado que a produção teve em construir um universo minimamente atrativo. A penetração no mercado chinês é a síntese última de como Hollywood busca aproximar-se de uma frente cultural e mercadológica que ameaça sua homogenia.

“Mulan” é consciente, ou não, de uma série de vácuos fundamentados pela própria Disney ao longo dos anos. Existe aqui uma miséria criativa, que é traduzida em cada campo do longa. Um verdadeiro raquitismo que toma conta. As cenas que envolvem um suposto romance mambembe durante a projeção, são de uma escolha terrível de diálogos, que caçoar da inteligência do espectador, desafiando o mais bem-intencionado pagante do serviço de streaming à suprimir qualquer desejo diante da película, para que possamos ver o desenrolar da narrativa “clássica” ser traduzida para questões contemporâneas com a preguiça intelectual inerente da indústria do Mickey Mouse.

Por sorte e azar, o filme esteve à parte dos grandes debates cinematográficos do ano, mantendo-se relevante no que tange o impacto da pandemia no setor da indústria audiovisual. Mas o produto é fruto da máquina de xerox neoliberal que sustenta um modelo de produção e representação que enfrenta um momento gravíssimo de falência generalizada. É uma decadência inevitável, que atravessada por questões políticas, torna-se membro fálico de uma indústria que utiliza-se da arma das representações para aumentar as cifras e gerar seus lucros. Não há grandes pirotecnias em “Mulan” mas um mal-caratismo sem fim.

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