Libelu – Abaixo a ditadura

Estudantes, uni-vos!

Por Victor Faverin

Durante o Festival É Tudo Verdade 2020

O documentário “Libelu – Abaixo a Ditadura” (2020), dirigido e roteirizado por Diógenes Muniz pode ser dividido em duas partes muito bem delineadas e exploradas: a origem do movimento Liberdade e Luta (Libelu), braço estudantil do grupo clandestino Organização Socialista Internacionalista (OSI); e como a vida se encarregou de transformar as ideologias e utopias de alguns dos antigos filiados, levando-os às profissões e vidas que têm hoje. As entrevistas com essas pessoas, hoje jornalistas, críticos, professores, são feitas na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, em cenário decorado apenas com cadeiras. O local não poderia ser outro. Foi ali, nos auditórios da USP que, em 1976, após a derrota na luta armada contra o Regime Militar e a Ditadura instaurada, tudo começou.

As gravações com os envolvidos são pontuadas com o papel de cada um deles na organização e desenvolvimento do movimento, bem como na pergunta do que tudo aquilo significou, tudo intervalado com preciosas imagens e vídeos de arquivo que são um retrato fiel do que foi a repressão no país. Para o professor e jornalista José Arbex Júnior, a Libelu foi a experiência com mais impacto no espírito da juventude brasileira do século 20. O também jornalista e ex-presidente da EBC, Ricardo Melo, discorda desse “hiperbolismo”, nas palavras dele próprio. Esse confronto entre ideias, exposto logo no início do documentário, é basicamente o único de toda a obra. Mas a ideia não é contrapor questões e, muito menos, opiniões. Se o fosse, Muniz teria se esforçado para reunir todos os seus entrevistados ao mesmo tempo em uma roda de debate. Mas logo no princípio de “Libelu – Abaixo a Ditadura” é mostrado como tal pretensa intenção seria inviável: cada um tem os seus próprios compromissos e não se reúnem mais todos juntos, seja para discutir ou relembrar de política.

Aliás, a obra é feliz em pontuar que para uma pessoa ser considerada trotskista, como pretendia ser a Libelu e seus membros, é preciso que haja grandes assembleias ou pequenas reuniões que discutam os caminhos para se realizar uma revolução. Fora isso, no máximo, o indivíduo pode sentir-se como tal, mas não mais o ser. Dessa maneira, o documentário desvela que a instauração do comunismo no Brasil não era a intenção desses jovens. Tal ameaça vermelha nunca de fato ocorreu na história do Brasil e o filme mostra isso através de vídeos de arquivo e entrevistas com os estudantes no programa televisivo de Mino Carta e em outros momentos de luta. O objetivo do movimento, na essência, era livrar o país da repressão sentida e batalhar por melhorias de ensino, em um primeiro momento, e trabalhistas, através da união com sindicatos representativos.

Para materializar o decorrer do tempo entre o militante intelectualizado de outrora e o indivíduo de agora, o diretor enquadra lado a lado, em tela dividida, o entrevistado com a foto de quando era estudante e fora fichado pelo Departamento de Ordem Política e Social, o infame Dops. Não parece que sofreram tortura, questão que o documentário deixa de fazer, mais interessado em saber se a pessoa traiu os próprios ideias. Nessa esfera, uma frase do jornalista, professor e ex-membro da tendência estudantil-política, Eugênio Bucci, resume de forma certeira a trajetória de determinados companheiros, sem nomeá-los: “alguns de nós o poder corrompeu e teremos de viver com isso”. Tal mácula na biografia é centralizada na figura do ex-ministro da Fazenda, Antônio Palocci.

A entrevista feita com o político, em prisão domiciliar, didatiza como o mais proeminente membro da Libelu em Ribeirão Preto, interior de São Paulo, onde nasceu, se transformou em uma pessoa envolvida em escândalos de corrupção e que aderiu à delação premiada para tirar o foco de si. Na conversa, o antigo aliado de Lula diz ainda se considerar um homem de esquerda, por mais que tenha seguido linhas conservadoras enquanto esteve à frente da economia do país. Mostra, também, arrependimento por ter feito caixa dois em campanhas, embora diga que das seis vezes em que se candidatou a cargos públicos, obteve êxito em todas e não sabe dizer se tal sucesso se daria se não fosse a prática escusa de campanha.

“Libelu – Abaixo a Ditadura”, nos brinda, ainda, com Palocci lendo um poema do poeta curitibano Paulo Leminsky sobre a admiração a Leon Trotsky: “me enterrem com os trotskistas/ na cova comum dos idealistas/ onde jazem aqueles/ que o poder não corrompeu/ me enterrem com meu coração/ na beira do rio/ onde o joelho ferido/ tocou a pedra da paixão”. O documentário de Diógenes Muniz talvez seja para o espectador um retrato de como as boas intenções do passado contribuíram para a consolidação da democracia e como se deve lutar para defender qualquer elemento que a ameace.

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