Intervenção

Tropa de Elite - Parte 3

Por Vitor Velloso

Durante o Festival do Rio 2019

Ao fim da projeção uma mulher grita “Não é assim que rola na favela, a UPP não é desse jeito, vocês já subiram na favela por acaso?”. Censurei aqui os xingamentos.

O sentimento da espectadora transparecia em alguns rostos ao redor de um Odeon lotado, enquanto parte aplaudia, a outra permanecia sentada e aflita com os últimos cinco minutos de “Intervenção”. A novela da Globo, disfarçada de longa policial, com uma quantidade maciça de convidados na sessão, chegou ao seu fim com um discurso à lá criança esperança, enquanto a personagem da Bianca Comparato berrava em uma tela de celular as necessidades da população: educação, saúde, menos desigualdade, menos violência e mais compromisso do Estado. Sim. Enquanto ela mantinha um traficante algemado sob ameaça de execução, tamanha hipocrisia e mentira jamais deveria ser portada como uma verdade que apenas secciona a sociedade.

A tônica do filme de Caio Cobra é tensionar ao máximo um conflito entre ideologias políticas divergentes através de um humanismo canhestro que ignora completamente a outra face da moeda, desrespeitando com frequência a realidade que diz demonstrar. Em dissonância com a matemática das mortes, ou mesmo dos recentes acontecimentos no Rio de Janeiro, a violência da PM carioca ganha justificativa no filme de Caio, uma resposta ao medo contínuo a que são submetidos. Se por um lado, há algum grau de lógica no pensamento, buscar exemplificar o genocídio com um argumento tão covarde é uma projeção bastante clara de um dos colaboradores do roteiro, Rodrigo Pimentel.

Presente na sessão de um Odeon lotado, de convidados, o ex-BOPE, fitou a mulher que lhe confrontava, mas fez aquilo que sua carreira no cinema e atrás do fuzil lhe ensinaram, negou o diálogo. Algo que “Intervenção” parece tentar, mas com quem? Uma classe média que defende o dogma reacionário e totalitário que “bandido bom é bandido morto”? Uma população militarizada, que se diz contra a intervenção militar no Rio pelo radicalismo da medida em si? Indiferente disso, o público alvo não tá no morro, muito menos chorou pelo sangue de um filho caído no asfalto quente.

E se o velho clichê retornar “Policial também tem mãe”. Sim, por isso a complexidade da discussão levantada aqui, não deve ser unilateral, como foi o projeto realizado.

Se não bastasse o apontamento político tortuoso, a própria dramatização apresentada é frágil. Um “vilão” caricato, com uma trilha malvadinha, que fuma um cigarro atrás do outro e cria metáforas (terríveis) para exemplificar ações. Uma policial que está dividida acerca das atitudes da instituição, mas quer manter seu sonho de “fazer a diferença”. E um comandante que se esforça para manter o batalhão vivo, cria frases de efeito constantes e é “penalizado” diretamente pelo despreparo do Estado com as medidas de segurança pública.

É assustador ver como “Intervenção” aceita naturalmente a violência, buscando gatilhos dramáticos que possam relativizar tortura, agressão contra uma moradora etc. Além de achar normal dois policiais fora de serviço, estarem armados, iniciar uma troca de tiro em meio a uma festa infantil. O filme faz graça disso.

A pretensão falha do embate político, se projeta na forma do filme. Um vício inexplicável por tomadas aéreas das favelas, drones e mais drones, uma série de diálogos sofríveis, as atuações que buscam uma complexidade e uma dramatização onde não existe, cortes frenéticos durante a ação, uma deficiência monstruosa em situar geograficamente o espectador. É uma série de tropeços graves que torna a experiência um tormento.

Tóxico e vulgar “Intervenção” falha em ser uma continuação espiritual de “Tropa de Elite” por ser uma bagunça formal, erra gravemente em buscar uma reconciliação de determinados setores e mantém unilateral uma discussão que deve ser discutida de dentro pra fora não o contrário. Atrás do fuzil existe uma pessoa, não um “marginal”, “vagabundo”, “elemento” ou uma patente. O despreparo da polícia não deve ser enxergado como desculpa para torturar e matar. Os erros do Estado não devem ser encarados como um problema que atinge única exclusivamente a justiça em si.

“Intervenção” não só foi criticado por seu público, mas também por seus críticos, principalmente Bruno Galindo (participante do Talent Press Rio), que teve sua crítica sobre o filme retirada do próprio site do Festival do Rio e encaminhada a um blog à parte. Censura? A Talent Press Rio posicionou-se publicamente emitindo uma carta resposta. Leia a carta AQUI na íntegra e entenda o que aconteceu!

 

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