Godzilla: Minus One

Godzilla plus one

Por João Lanari Bo

Festival Internacional de Tóquio 2023

Godzilla: Minus One

“Godzilla: Minus One”: o próprio título do filme é revelador da conjuntura que informa mais uma aparição do velho conhecido Godzilla. Ele simboliza a condição trágica do Japão no pós-guerra, que foi reduzido a zero (marco zero) após a destruição da Segunda Guerra Mundial e os ataques nucleares, e que é empurrado para uma situação ainda pior — o negativo, ou seja, menos um — com o surgimento e os ataques do “monstro”.

E o que é o “monstro” que volta a atacar? Se levarmos em conta as declarações de Putin após a invasão da Ucrânia, em 2022, com constantes ameaças de uso do arsenal nuclear russo, o monstro que habita as profundezas do oceano tem razões de sobra para dar as caras e atormentar os pobres humanos, destruindo o que atravessa seu caminho, navios, aviões e até uma cidade populosa, Tóquio.

“Godzilla: Minus One” se passa no Japão do pós-Segunda Guerra Mundial, entre 1945 e 1947, em um momento em que o país estava social, moral e economicamente arrasado pela derrota militar e pelos bombardeios atômicos. Lançado em 2023, o filme absorve as tensões subjacentes do momento, aguçado por guerras que parecem não ter fim, Ucrânia e Gaza. filme original de 1954, Godzilla funciona como uma personificação viva da destruição atômica e dos testes nucleares americanos e franceses no Pacífico (como a Operação Crossroads), que mutaram e fortaleceram a criatura.

Agora o monstro não é apenas a criatura gigante, mas os traumas invisíveis deixados pelo conflito mundial. O filme inova na franquia ao colocar o drama humano em primeiro plano, usando a ficção para explorar a psicologia do estresse pós-traumático (TEPT) e a reconstrução moral de uma nação.

O personagem principal, Kōichi Shikishima (Ryûnosuke Kamiki) experimenta um sentimento de vergonha pesado – foi um piloto kamikaze que fingiu um problema mecânico para não morrer, falhando com um dos dogmas mais alucinados da guerra, o sacrifício pelo Imperador. Mesmo que ninguém duvidasse, àquela altura, da derrota japonesa, sobreviver era visto como um ato de covardia. Ao encontrar Godzilla pela primeira vez na Ilha Odo e congelar de medo, resultando na morte dos mecânicos locais, sua culpa se multiplica. Ele retorna a Tóquio acreditando que deveria ter morrido.

O pós-guerra foi um período traumático não apenas para Shikishima, mas para a grande maioria da população. Caos social e habitacional, mercado negro de tudo o que se pode conceber, alto nível de prostituição como último recurso para seguir vivendo – é difícil imaginar como foi possível encarar todo esse estresse pós-traumático. Shikishima sofre de pesadelos violentos e alucinações, acredita estar preso em um purgatório ou que sua vida atual é apenas um sonho antes de sua morte inevitável.

O mérito do diretor e roteirista Takashi Yamazaki foi cercar o kamikaze frustrado com personagens com atributos realistas, mesmo dentro do escopo de uma trama fantasiosa como são os filmes da franquia. Noriko, que Shikishima esbarra na confusão urbana, representa os civis que perderam tudo nos bombardeios de Tóquio. Ela carrega Akiko, uma bebê órfã cujos pais morreram no mesmo ataque. Embora passem a viver juntos, por absoluta falta de opções, o trauma impede que eles formem um casal tradicional. Shikishima se recusa a se casar por achar que não tem o direito de viver.

O trabalho de Shikishima limpando minas navais no barco Shinsei Maru o coloca em contato com três visões diferentes da guerra. Yōji Akitsu (o Capitão), um veterano endurecido que entende a dor de Shikishima. Kenji Noda (o Cientista), engenheiro naval, representa a culpa intelectual. Ele canaliza seu trauma na busca por soluções lógicas e científicas para salvar vidas, algo que a tecnologia militar anterior não priorizava. E Shirō Mizushima (o Jovem), tripulante que não lutou na guerra, que simboliza o futuro.

Não faltam cenas impactantes de destruição e violência em “Godzilla: Minus One”, realçadas por uma fotografia virtuosa e CGI eficiente. Mas sutilmente o filme subverte a lógica do Japão Imperial prevalecente na guerra. Enquanto a doutrina militar exigia o sacrifício e a morte dos soldados pelo Estado e o Imperador, nesse momento, após a derrota, o plano civil para derrotar o “monstro” foca estritamente em garantir que ninguém morra.

Um total de 38 longas-metragens foram produzidos na franquia Godzilla desde 1954. Pela qualidade da realização, a última da série, efetivamente não é um “minus one”: é um “plus one”.

4Nota do Crítico51

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