Filhas do Sol

Tema demais, cuidado de menos

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Cannes 2018

Exibido na seleção oficial competitiva do Festival de Cannes 2018 e no Festival Varilux de Cinema Francês do mesmo ano, “Filhas do Sol” define seu gênero como o de filme urgente, que foca no estudo de caso do social para construir um discurso influenciador, crítico e questionador, pautado na crença ingênua de que para que a mensagem surta efeito é preciso estimular com inflamação potencializada a emoção do espectador. O espectador é conduzido por uma narrativa em estrutura de novela, que suaviza os dramas com gatilhos comuns característicos (explosão em câmera lenta, que projeta a inferência metafísica do sonho), clichês pululantes e reviravoltas facilitadoras de um roteiro palatável, como a caricatura do tapa-olho, à moda “Twin Peaks” e “Kill Bill”.

Dirigido por Eva Husson (de “Bang Gang (Uma História de Amor Moderna)”), “Filhas do Sol” é um filme sobre sobrevivência. Sobre transpassar dificuldades de uma guerra-faroeste em terras sem lei. O público é convidado a embarcar em uma jornada epopeica de digressões rememoradas. Dramas e resgates são suavizados e salvos pelo poder subjetivo da fala, que escolhe inflexões, pontos principais e direcionamentos a abordar. Tudo é de efeito e imponente. A propaganda Marxista acontece acompanhada pela música que aumenta e rasga a cena de ação. E a inocência está na mão da personagem que escreverá sobre a causa.

O longa-metragem é um melodrama encenado. Realizado para emocionar e pedindo a cumplicidade de quem assiste para desenvolver seu conceito por “planos distantes” e perpetuar a crueldade das tragédias, das desgraças e das mortes. E principalmente das lembranças (do que foi deixado para trás, como a vida feliz com o filho). Mas tudo é elevado ao tom piegas. Dramático demais entre “americanos” e “extremistas” “à luz das bombas” que “potencializam a violência”. Há histeria e cortes rápidos. E mais uma vez a música-conceito manipula a emoção (como o choro teatralizado), impedindo que nós possamos despertar o pensamento crítico por nós mesmos. “Vitória ou vitória!”, o lema.

“Filhas do Sol” é sobre a iminente e necessária revolução. De luta armada pela presença ativa e enérgica das mulheres. É uma guerrilha urbana contra rebeldes, muitos alienados dentro de suas limitadas ideias, que por sua vez foram alimentadas e condicionadas pela massificação da televisão. A guerra também pode ser vista como um troféu de poder. Uma posição privilegiada de ordens a submissos. É um grande jogo competitivo (um War realista – traduzido ficcionalmente, então essa verdade é meramente ilusória) que quem ganha é o orgulho.

O filme arma-se contra a figura dos homens e seu radicalismo misógino. A missão de manter a existência “permite” que celulares sejam escondidos nas partes íntimas. Sim, o argumento é de realização obrigatória, mas o que realmente incomoda é a transposição da interpretação, que mais parece um ensaio que uma cena final, como os olhos que viram para esconder o drama e afagar o choro. E ou os gritos que superam a histeria. E ou a forma desengonçada de segurar a arma. Sim, muito clichês.

“Filhas do Sol” escala para protagonista Bahar, a iraniana Golshifteh Farahani (de “Paterson“), conhecida após ser banida de seu país e por haver posado nua para o Le Figaro Madame, e disse antes de deixar seu país: “Olhe para nós, todos que nascemos depois da revolução. O mundo muçulmano olha para o Irã como um exemplo, um sonho, mas eles não sabem o que acontece lá”, frase esta que pode ser metaforicamente sugerida como explicação ao filme em questão aqui. Ainda no elenco, a atriz-diretora francesa Emmanuelle Bercot, uma jornalista francesa que está acompanhando o batalhão durante o ataque. Como foi dito, é um filme urgente, de luta sócio-política. Bahar é é a comandante das Filhas do Sol, um batalhão composto apenas por mulheres curdas que atua ofensivamente na guerra do país. Conflitos são negociados e diferenças, entendidas.

Se a imaginação permitir, nós poderemos inferir “Filhas do Sol” a um episódio mais contemporâneo de “Game of Thrones”, tudo porque a moral de toda guerra é mapear e conquistar territórios. Primeiro com espaços, depois com gêneros da existência. O filme não tem precisa sofrer balas por sua escolha narrativa. É apenas uma decisão consciente desde o começo: a de permanecer na superfície e impedir o aprofundamento mais nu e cru da realidade. É uma ilusão de uma ficção baseada no que acontece no mundo. Sua direção não é ruim. Só preguiçosa.

 

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