Por Fabricio Duque
Direto do Festival de Cannes
15 de maio de 2016


“É uma história tranquila. Sua estrutura é simples. Paterson é uma homenagem  à poesia dos detalhes, das variações e das mudanças cotidianas. É um antídoto ao alardeamento dos filmes dramáticos e de ação. É como uma gôndola que atravessa as ruas de uma vila obliqua”, Jim Jarmush.

 

O novo filme “Paterson”, do mestre de “Sobre Café e Cigarros”, Jim Jarmush, é uma ode à incondicionalidade do amor, aquele que causa felicidade nas pequenas micro-ações cotidianas corriqueiras, criando a apatia resignada do equilíbrio, porque quando se ama, nada mais importa, a completude se faz presente e dominante. O longa-metragem, que integra a seleção oficial a Palma de Ouro do Festival de Cannes 2016, constrói uma atmosfera intimista etérea livre e espontânea (de imagens sobrepostas), focando na unicidade intrínseca do ser humano, com suas particularidades, idiossincrasias, manias, desejos, crenças, sonhos, projetos, limites, silêncios analíticos e contemplativos (de dentro para fora), vontades, “o gosto da cerveja na boca”, os “Cupcakes” monocromáticos, liberdades (de se ir a um bar sem culpas – até porque quando se ama, a confiança é plena) e o processo da escrita. O amor é respeitar e entender o outro em sua essência. “Paterson” mergulha seu espectador na sutileza, elevando a ideia do que Os Beatles já cantavam, de que tudo que você precisa é o amor (“All You Need is Love”). Sim, aqui, o personagem principal é o amor puro, coloquial, cotidiano, ambientado (ora por câmeras escondidas) com o ator Adam Driver (que tem inclusive motorista no sobrenome – de “Star Wars: O Despertar da Força”; “Frances Ha”; e do seriado “Girls”), de “Girls” e “Star Wars” e da ex-exposa de Louis Garrel, Golshifteh Farahani (de “À Procura de Elly”, “Eden”, “Dois Amigos”). Como foi dito, é uma estranheza (como a pintura do cachorro “zoador vingativo” a la Frida Khalo) que se comporta de forma não abstrata (de momentos de surrealismo transpassado realisticamente), por poemas de simplicidade não métrica (que são escritos na tela do filme) e por ângulos estéticos que também buscam a poesia do ser, e não do estar, da imagem. O protagonista, Paterson (que tem o mesmo nome do lugar que mora em New Jersey), um motorista de ônibus que transporta pessoas “ouve” o universo a seu redor (e as histórias “privadas” das pessoas), reverberando que o diálogo – à moda do italiano Dante Alighieri – é o mais importante e principalmente o “alimento” “material-bruto” de continuar se inspirando. Mas é no bar “inferninho” jazzista inofensivo que Jim Jarmush corrobora seu estilo de uma espontaneidade editada e completamente despretensiosa, “conduzindo” seu público à sutileza das imagens normais e libertas. Na vida do casal, ele escreve e ela exercita seus quereres mais impensados, como se tornar uma cantora country, e ser obsessiva com listras e ou bolas monocromáticas. O roteiro que se apresenta por dias da semana; pelo simbolismos dos gêmeos (que infere que quando amamos nos tornamos o outro, neste caso, literalmente); e por perspectivas das conversas resilientes e dos momentos detalhistas (como a poesia de William Carlos Williams – o poeta americano do modernismo e imagismo) e pessoalmente personalizados. Aqui, o amor é como o próprio filme: calmo, “easy going”, tranquilo e está em todo lugar, mesmo quando de vez em quando a padronização da rotina seja “quebrada” por adversidades do acaso (talvez para “movimentar” um pouco a existência – quase um “jogo divino”). A “razão está no amor”. AHAM! (entendedores entenderão!). Recomendadíssimo.

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