Fantasma Neon

Exploração mitológica

Por Vitor Velloso

Durante o Festival de Locarno 2021

“Fantasma Neon” de Leonardo Martinelli (“Lembra” e “Copacabana Madureira”) é um dos dois filmes brasileiros presentes na mostra Pardi di domani no Festival de Locarno 2021. A obra expõe o problema da uberização do trabalho e como a vida desses trabalhadores é ditada pela máxima neoliberal: jornadas de trabalho ostensivas, nenhum tipo de direito e retorno de acordo com a quantidade de horas à disposição do patrão. Está claro que os argumentos tacanhos de “mas você é seu patrão e faz sua hora” são tão absurdos que não merecem espaço para resposta aqui. De toda forma, a escolha de criar um musical a partir da situação dos proletários soa como uma estilização do problema social, ou seja, uma exposição estética da realidade sem um diagnóstico da questão.

Ainda que o curta consiga levantar algumas discussões e criar imagens com certo impacto (como um cadáver que dá lugar ao trabalhador deitado com a cabeça apoiada na caixa de transporte dos alimentos), as ideias não conseguem encerrar em uma análise crítica. As cenas suspendem a brutalidade do cotidiano para criar certos panos de fundo para as performances e canções. Um musical que tenta reforçar alguma brasilidade nas letras e coreografias mas está repleto de cacoetes europeus. A dança com a Ilha Fiscal de fundo é um exemplo disso, onde os pés do personagem deslizam como as encenações de Demy.

Essa tônica se repete em “Fantasma Neon” que não encontra espaço para uma mudança para além dos escapes musicais. A reunião final, uma espécie de sindicato dos explorados embaixo de uma ponte, reforça que o próprio meio de trabalho segue exposto no encontro. O maior problema aqui não é a questão proposta, mas a forma como ela é feita e a falta de um debate a ser realizado de maneira sistemática. A utilização do recurso performático cria uma dimensão paralela às lutas dos trabalhadores e redireciona a exploração para uma cantoria que sintetiza o grande imbróglio na discussão: a falta de um eixo na discussão, capaz de aglutinar os problemas. Com isso, a própria questão da COVID, apresentada pelo filme, aparece como secundária.

A verve dicotômica apresentada aqui, faz com que tanto a exploração capitalista quanto às performances não chegue a uma dialética crítica. E esse ponto é comum na filmografia de Martinelli, que prioriza a exposição de um problema político-social (“Vidas Cinzas”), ou estético (“Lembra”), sem fomentar um diagnóstico que resolva o problema na representação. Quando a imagem e os espaços se tornam objetos mitológicos, nem o povo entra na roda, e a resolução formal parece uma saída mais prosaica que militante. Mas a cena que diz “entregar comida com fome” merece uma menção, não apenas pela consciência da “ironia” mas pelo reforço do fator trabalhista na exploração econômica.

Trailer

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