Copacabana Madureira

É Preciso Desenhar

Por Jorge Cruz

Mostra Sesc de Cinema 2019

A territorialidade é um elemento fundamental de entendimento do Rio de Janeiro. Por mais que o turista mais interessado tente desvendar o mistério de uma cidade partida – por vezes com finas rachaduras que ocupam uma esquina (ou subida de uma ladeira) – é preciso circular, de fato, pelos ambientes e captar o que faz da antiga capital brasileira o organismo complexo e pulsante. “Copacabana Madureira” não quer ser um documentário de buscas por respostas, de explanações ou de depoimentos. Pelo contrário, ele não se pauta sequer em um questionamento. Ele é apenas uma construção de verdade, um conjunto de argumentos que, por sinal, não invalida nenhuma das formas de se ver e entender o país.

A imagem que abre o curta-metragem, tão fundamental para a linguagem cinematográfica, não poderia ser mais icônica: o mar da praia de Copacabana de cabeça para baixo. Leonardo Martinelli (de “Lembra“, “Vidas Cinzas”) roteiriza e dirige a obra quase como servindo de espelho. Usando imagens difundidas na campanha presidencial de 2018, a montagem de Pedro de Aquino em nenhum momento aplica juízos de valor. Todavia, é possível que poucos espectadores que assistam “Copacabana Madureira” concorde com essa assertiva. Isto porque aqueles que nunca viram credibilidade em mamadeiras eróticas e boatos sobre Pablo Vittar entenderão ser o curta-metragem uma ode ao absurdo, um registro da onda de fake news que tomou conta do país, enxergando um grande poder de perpetuação dessa versão.

Porém, há uma construção que usa a mesma estética memética (não na acepção original, mas em um neologismo que aplica o meme como linguagem) que ilustra o discurso vencedor. Martinelli acerta em cheio ao nos transportar para a UERJ, localizada no Maracanã e se valendo quase como um espaço mediador entre a zona sul verde e amarela, aquela que as telenovelas e o própria cinema diz ser o Rio de Janeiro; e o subúrbio, onde a vida institucionalmente tem menos valor. Muitos entendem ser os túneis que levam do centro da cidade à região mais rica o rito de passagem para exercer a orgulhosa carioquice do mate com biscoito Globo na praia. Mas o cineasta nos propõe um outro portal: o karaokê da Feira de Tradições Nordestinas de São Cristóvão, um espaço quase tão democrático quanto as areias sagradas do Arpoador, com o diferencial que o exercício de poder é feito por quem as elites buscam invisibilizar: os migrantes nordestinos que acordam e colocam a dormir a metrópole.

O filme ainda nos deixa pensativo ao abordar as mensagens escritas nas paredes e portas dos banheiros públicos. Aquelas que nunca nos importamos. Ali, naquele ambiente extremamente íntimo, as pessoas se permitem colocar toda a raiva, preconceito e intolerância para fora. Nesse espaço se ganha uma eleição presidencial. Partindo da abordagem territorial, “Copacabana Madureira” se revela muito perturbador. Não se trata de um tapa, mas de um esquartejamento com luva de pelica. Uma obra que tem força para inaugurar o debate sobre a pós-verdade até para aqueles que se negam a aceitar a que ponto chegamos. Como se precisássemos voltar à infância e perguntar para o colega do lado, que se faz de idiota, se é preciso desenhar. No Brasil de 2019, Leonardo Martinelli nos prova que sim.

 

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