Da Curva pra Cá

Ilusão Concreta

Por Jorge Cruz

Mostra Sesc de Cinema 2019

Da Curva pra Cá“, filme capixaba do diretor João Oliveira, se utiliza de um artifício parecido com outro curta-metragem exibido na 3ª Mostra Sesc de Cinema, “Tipoia“: o uso de notícias e propagandas sobre a reforma da Previdência e o governo Michel Temer. Porém, se no representante alagoano comentamos que há certa abstenção quanto ao juízo de valor, politizando sua representação a partir da simples inserção de imagens, aqui o uso se dá em prol de um argumento muito bem construído.

O filme mostra um jovem, morador de comunidade, que se vê no meio da madrugada na dúvida entre sonho e realidade. Antes da segunda metade da projeção entregar um thriller bem executado, somos levados a uma ambientação ao mesmo tempo inteligente e intrigante. O roteiro de “Da Curva pra Cá“, do mesmo João Oliveira, se utiliza em boa parte do tempo de interpretações estereotipadas, conduzidas pelos diálogos óbvios e vazios que são formatados. Uma maneira de obter foco a partir de certo estranhamento – que será quebrado quando o protagonista se vê diante da televisão.

Em “Tipoia” discursos do então Presidente e anúncios de mudanças na legislação contrárias aos interesses dos mais pobres têm como propósito ilustrar a impotência do personagem principal. Já nessa obra há uma perfeita ilustração do que é dito pouco antes, quando se afirma que há um “clima estranho na comunidade”. Uma sociedade, que nos últimos anos pavimentou sua decisão ignorando os alertas do genocídio negro que ocorre diariamente nas favelas, cresce em cada zapeada de canal ali representada. Até que o personagem parece desistir da TV aberta e passa para o canal 17 – vejam só!. Momento em que uma cena particular de tortura do clássico “Oldboy” (Park Chan-wook) é exibida.

Nessa mente transtornada de quem vê a corrosão das estruturas sociais tanto na dura rotina de trabalhador quanto no que deveria ser o momento de lazer, o roteiro de “Da Curva pra Cá” defende seu plot com propriedade. O terror psicológico da segunda metade se vale de um excepcional uso da territorialidade da favela, ampliando muito o campo de visão que a premissa das imagens do governo que se findou em 2018 permite. No pânico nosso de cada dia, um curta-metragem na medida para manter em alta a paranoia urbana brasileira.

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