Exercícios de Memória

Ciclos de tempo 

Por Francisco Carbone

Assistido presencialmente durante a Mostra CineBH 2026

Exercícios de Memória

Paz Encina é uma das homenageadas desta edição da CineBH 2026, e com isso seus filmes estão sendo exibidos para grande parte do público pela primeira vez. E o que seduz tanto o cinema dessa celebrada artista paraguaia que tenha causado o interesse do festival em promover tal homenagem? Pois não precisamos ir além de um único título para constatar os motivos. Por exemplo, “Exercícios de Memória”, uma produção de 2016 que mostra como o mais longo regime de ditadura latino americano ainda consegue reverberar nos corações e mentes de quem sobreviveu a ela. O filme não tem interesse como um documentário comum de apresentação de tese, mas como seu valor cinematográfico atinge um patamar complexo.

A cineasta de “Hamaca Paraguaia” busca as mesmas respostas que o continente tem exigido ao longo das décadas: reparação histórica e justiça igualmente. Mas o faz sem didatismo ou prolixismo, indo ao ponto das questões urgentes através de um olhar sem saudosismo envolvendo as crianças do período, hoje transformados em adultos com terríveis lembranças. Não trata-se de clichês de violência (que, ainda assim, precisam ser narradas), mas de uma escolha sóbria por revelar grande parte da melancolia do qual esses sobreviventes estão submetidos pelas próprias condições do que lhes foi legado. O mergulho é literal, e o filme é cercado por essa imagem-símbolo: uma criança submerge cada vez mais nas águas turvas de um rio, até alcançar uma superfície que só se imagina.

O filme desenvolve um processo que liga as voice over dos quatro entrevistados a imagens capturadas no presente, que metaforizam muitas passagens. Como a casa vazia que reflete o abandono pelo qual muitas famílias foram capazes de suportar continuamente. E não somente isso, porque também estamos falando das impactantes imagens de cômodos tradicionais de uma casa, sem som ambiente e repleta de memórias de um horror banal. “Exercícios de Memória” parte desse material narrado cheio de dor para acessar tais imagens que podem se traduzir pela contínua sensação de abandono que os espaços desérticos de pessoas, vida e vibração humana traduz. Insetos trafegam livremente, porque sabem que nada de seu transporte comum será impedido; o vazio posterior ao medo e ao horror.

Essa primeira parte não tenta nos povoar de sentimentos e emoções: tudo o que está em cena nos carrega para uma tristeza profunda causada pelo desconhecido e pela tragédia de passar 35 anos em um regime assassino. Mas uma horda de sons e movimentações invade a tela para ser tomada conta por um quarteto de crianças ruidosas a movimentarem-se por um floresta, ora densa, ora repleta de elementos aquáticos. A narração também as segue, e aos poucos o espectador vai driblando a nova estrutura para acompanhar a costura mais evidente, e completa – mesmo que a tal memória trabalhe para não lembrar, os reflexos já estão impressos sob a égide que for. Ou seja, “Exercícios de Memória” é um resgate do momento mais terrível de um país, e também é uma tentativa de libertação desses indivíduos para uma chave de sonho.

Ainda que o lúdico compunha o painel de brincadeiras e companheirismos típicos da primeira juventude, sabemos (através das vozes disponíveis) que não existe poeira baixa em questão. “Exercícios de Memória” não é uma válvula de escape das armadilhas fatais de torturadores, mas também é sobre reencontrar-se com o passado, e perdoar as crianças que fomos. A maneira como filma, buscando cada detalhe que o olho faria escapar, mostra que Encina tem a necessidade da certeza, e isso faz sentido a uma mulher que cresceu na dúvida e na tradição da perda. Ao olhar capturar os detalhes de cada olhar, de cada gesto, de cada novo arroubo de juventude em tela, gerando explosões quase mudas, a diretora organiza tudo que foi perdido no inconsciente e que pode ser reconfigurado.

Ainda que sua duração não seja exatamente longa, “Exercícios de Memória” é feliz em encapsular nesse pouco mais de 70 minutos um misto de impressões acerca de um tempo, e das marcas que o atravessam. Eles estão no perdido das imagens de uma vida abandonada pela tragédia, deixada em peso de maneira abrupta, e eles não deixam de angustiar por uma infância radicalmente abatida, que conta com o sonho mas não abre mão de uma ruína interna. É a sensibilidade de sua realizadora em capturar os detalhes, as formigas, os galhos, os restos, as armas pequeninas, para modelar de maneira tátil o sopro do mal, e as reminiscências que nunca serão totalmente singelas como deveriam.

4Nota do Crítico51

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