Eddington
Entre máscaras escolhidas
Por Fabricio Duque
Assistido presencialmente durante o Festival de Cannes 2025
Talvez o terror mais apavorante que exista seja mesmo quando super expomos nossas patologias comportamentais, mais genuinamente individuais dentro do obrigatório coletivo que precisamos compartilhar. É nesse gênero de horror psicológico e derivante que se desenvolve o universo do realizador Ari Aster quando personifica a loucura como obsessão, o orgulho como guerra e a catarse como meta fatalista da própria existência humana. Quer mais pavor que a iminência da morte causada pela negligência e pelo negacionismo do outro ser humano? O diretor norteamericano de “Hereditário”, “Midsommar” e “Beau tem Medo” usa a própria estrutura do social para construir suas narrativas. Em seu mais recente longa-metragem, “Eddington”, exibido aqui na mostra competitiva a Palma de Ouro do Festival de Cannes 2025, há ainda um querer a mais: trazer a polarização política e seus efeitos diretos pelo exagero maniqueísta.
“Eddington” é um estudo de caso intimista, passado na pandemia do Covid-19, que se propõe abordar o micro para discutir o macro. De um lado, os que estão a favor da vacina e do outro os contras, chamados de “karens” (termo gentílico estadunidense usado a pessoas ultra mega egoístas que só aceitam suas próprias regras). Sim, é inevitável não referenciar isso tudo aos novos valores impostos por Donald Trump. O que o filme faz é se desencadear por uma comédia absurda de situações espelhadas na realidade, incluindo os diversos discursos de teorias da conspiração. Pois é, “Eddington” já começa assim: acima do tom, em que conversas e reações de suas personagens, assim como a ritmo do próprio filme, são overreacted. Palavras, construção, ambiência e até inserção de vídeos negacionistas do Youtube, tudo está exagerado para talvez, sem sutilezas, potencializar a crítica a este mundo novo, em processo consciente de destruição e apocalipse.
“Eddington” quer ensaiar um documento sobre lados políticos. Usar um xerife (um “mandante da lei” “escroto”, “arrogante”, conservador de direita e “selvagem-raiz“ na masculinidade tóxica) de um lugarejo interiorano para representar esse papel literal e radical a apenas duas opções, a do bem (que tem empatia social e se preocupa com o outro) e a do mal (do egocêntrico, orgulhoso e autocentrado somente nos próprios interesses). Podemos praticamente resumir o filme no antes e depois do pedido de se usar a máscara, esta que até poderia simbolizar uma metáfora filosófica sobre nossos tempos de aparências, mas que foi banalizada ao esvaziar as próprias pautas.
Pois é, nem todo mundo consegue e quer aprofundar tanto a mensagem. “Eddington” é um filme de mise-en-scène (meio faroeste contemporâneo) e se desenvolve mesmo na superfície mais óbvia, ainda que tenha no elenco o “coringa mestre dos mestres” da atuação: o ator Joaquin Phoenix (que também esteve presente no filme anterior de Ari). A atmosfera do filme imprime uma das características essenciais de seu realizador: a ambiência sensorial, mais metafísica e de iminência etérea de perigo chegando. E também traz em discursos os posicionamentos político-sociais mais polêmicos, contraditórios e “cancelados”, como “o vírus foi criado por ricos”, num que de ideologias excêntricas-individuais versus a da coletividade.
“Eddington” é sim um retrato da pandemia, que levanta todas as questões consequentes. A cidade “morta” (vazia) está no meio de um período eleitoral. Entre “cérebros alienados, enganados e perdidos”, outras vertentes preconceituosas são lançadas: a xenofobia e o racismo, duas pautas “vitais” do Governo Trump. E assim, o filme desenha seus recortes. De Deus a Angela Davis. E assim, como estrutura focal do cinema de Ari Aster, o ritmo sobre o tom ao surto do absurdo, da obsessão e da loucura co-dependente retro-alimentada. Sim, neste momento, nós pensamos: mas era só ele usar a máscara. Uma ação ganhou uma proporção nacional e inflamou a raiva da população. Protestos, caos, fake news e efeito de comoção. Sim, de novo, Joaquin é muito bom. Entra mesmo na personagem.
Isso tudo faz propositalmente o filme perder o controle, ao som de Katy Perry e seu “Fireworks”. E sim, “Eddington” dá o que o público quer: a solidão, a impotência e a catarse do final feliz, ainda que de uma forma cruel por estimular na gente o pensamento negativo e o nosso querer por vingança. Se todos perdem, não existe lado bom, né? O longa-metragem poderia mesmo ser uma obra precisa dessa fase de um infortúnio que dizimou milhares de pessoas no mundo. Pois é, mesmo com tudo na mão, e com todo o apoio da A24, Ari Aster, como já disse, preferiu o conforto da superfície. Continua sendo bom, mas poderia ser muito melhor.




