O Mal Não Espera a Noite – Midsommar

O Terror da Banalidade

Por Vitor Velloso

Depois do sucesso de “Hereditário”, Ari Aster ganhou uma quantidade louvável de seguidores, com isso a espera por “O Mal Não Espera a Noite – Midsommar” era grande, o marketing veio em peso e as apostas altas, tanto por parte da crítica quanto do público.

Seu novo longa é uma espécie de sucessor espiritual do anterior, com o acréscimo da máscara festiva que é adicionada ao projeto, porém fica claro desde o início a estranheza de tudo que aparece na tela, o espectador não é propriamente surpreendido nesse sentido, mas sim de uma banalidade da violência que torna-se crescente com o passar do tempo.

A estratégia é parecida, confrontar a imagem dos personagens, e suas reações, diante do absurdo e do grotesco, só que o jogo de manipulação aqui torna-se mais evidente, pois há um envolvimento progressivo com toda aquela ambientação, que se inicia rapidamente com a chegada dos protagonistas ao festival de fertilidade. Uma sedução da paisagem, da felicidade das pessoas ao redor e todo um encantamento que se contrapõe aos primeiros minutos de filme, de uma brutalidade própria do diretor.

A câmera passeia entre as pessoas, planos sequências realizados em constância, tudo com o intuito de dar esse tom de comunidade, ao mesmo tempo que demonstra a necessidade de fixar aqueles diálogos em um campo de delírio e vertigem. Conforme a narrativa vai se desenvolvendo, parte da estratégia muda, a câmera já encara as ações, observa de maneira estática e fria aquilo que se desenrola. Aster já inicia a jornada ao inferno com sua mudança na postura estética do longa.

A fotografia ensolarada que vezes cega o espectador, se funde às alucinações das substâncias que são consumidas, dando o fascínio da “espiritualidade” regional, ao passo que força um atravessamento constante das questões corpóreas do filme. O contraponto da liberdade que os tecidos brancos e paisagem estonteante causam à rigidez de alguns personagens e a claustrofobia que o projeto causa, é bastante eficiente. Sentimos a inquietação que há nos cantos obscuros daquele culto, ao passo que sentimos uma atração de monumentos, físicos e espirituais específicos, pois o diretor usa constantemente o afastamento e a aproximação da câmera para nos guiar à tais lugares.

O problema é que conforme esse jogo se desenrola, as vísceras que são expostas não atinge diretamente o espectador, por ser de uma frieza tamanha. Causa apenas estranheza, repulsa à alguns atos, mas não sentimos nada além disso pelo excesso de exposição à determinadas situações. O que em outros momentos é uma arma fundamental, como quando a protagonista Dani (Florence Pugh), chora e grita, em um contexto que não irei revelar, e várias mulheres estão em volta dela, no que parece ser um consolo, mas todas elas imitam seus gritos em uma compulsão frenética. A cena é bem eficiente no sentido de conquistar a emoção à um lugar completamente distinto.

Já em outra cena, vemos que a estratégia não funciona tão bem, quando vemos um sexo pouco consentido sendo realizado à frente de pessoas nuas e uma musicalidade evoca um frenesi da situação, percebemos que a rigidez dos planos está dissonante com a proposta que se busca na mise-en-scène. E estes recursos são comuns em “O Mal Não Espera a Noite – Midsommar”, mas por sua falta de articulação diante de determinadas situações, fica claro que uma flexibilização faria muito bem à proposta. Mas o diretor parece estar mais preocupado em manter sua assinatura que construir uma obra que não fique à sombra do filme anterior.

Não à toa, se as amplitudes dramáticas de “Hereditário” era o que dava o tom agonizante daquela trama, em “Mid” pouco se explora aspectos psicológicos dos personagens, o excesso de centralização na questão do casal protagonista traz uma redução drástica das ações gerais. Christian (Jack Reynor) é um personagem que pouco vibra na dramaturgia, Mark (Will Poulter) chega a causar dúvidas, pois sua relevância geral é tão pífia que não se compreende a colocação.

E esse problema limita muito as possibilidades psicológicas do longa, pois tratando de uma comunidade isolada, que sufoca as pessoas e tensiona todos à um lugar comum, é necessário que haja maior intimidade dos espectadores com elas, sem isso suas atitudes irão sempre soar um artifício.

“O Mal Não Espera a Noite – Midsommar” possui problemas sólidos, mas consegue cumprir parcialmente com aquilo que deseja, porém dá a sensação de fragilidade na construção por parecer sempre que está em dissonância com a própria proposta.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *