Uma crítica ao politicamente correto

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Berlim 2018


É mais que compreensível que cineastas possam derrapar nos resultados criativos de suas obras, até porque ninguém é perfeito e todos são passíveis de erros. Atire a primeira pedra que nunca cometeu um deslize! Sim. Mas também um filme precisa de inúmeros elementos como a boa escolha de um roteiro e atores acertados que se tornam não personagens encenados, mas a própria encarnação do papel.

Um destes exemplos é o novo filme de Gus van Sant, “A Pé Ele Não Vai Longe”, diretor que inevitavelmente (e desculpado), de tão impulsivo e independente, preza por uma carreira irregular, apesar de seus icônicos clássicos “Elefante”, “Drugstore Cowboy”, “Garotos de Programa”, “Gênio Indomável”, “Inquietos”. Na verdade, quando se diz irregular é mais por não conseguir uma inânime maestria, sabendo que “The Sea of Trees” é sem questionamentos, um dos piores filmes da História do cinema.

“A Pé Ele Não Vai Longe” não poderia ter dado errado, principalmente pela presença arrebatadora de Joaquin Phoenix, baseado no livro homônimo de John Callahan (o personagem real cine-biografado). E editado pelo próprio Gus van Sant. Exibido na mostra competitiva do Festival de Berlim 2018, o filme é uma crônica politicamente incorreta que, com humor espirituoso e humanizado (às vezes agressivamente incômodo e constrangedor), tira sarro de um cadeirante que “vira um bebê”, como por exemplo, crianças que riem quando o “aleijado” cai da cadeira de rodas e ou a “gordinha amigável”. E ou a mãe, a “rainha puta”.

John Callahan (Joaquin Phoenix) é um homem conturbado que, bêbado, bate de carro e sofre um grave acidente. Tetraplégico, ele transforma sua vida, tornando-se um dos cartunistas mais improváveis, ácidos e perseverantes do mundo, usando as limitações físicas para desenvolver uma carreira artística com a ajuda de sua namorada (Rooney Mara) e de um simpático padrinho (Jonah Hill). Sorte versus carma? Ele ganha a “vida de volta”. “Enjoy!” (Aproveite!). E adentra no processo de adaptação.

“A Pé Ele Não Vai Longe” é distribuído pela Amazon, empresa que também lançou “Roda Gigante”, de Woody Allen, tanto que aqui se inicia com seu jazz característico. Busca-se um estilo atmosfera do universo do diretor Steven Soderbergh, com sua câmera próxima, histórias trágicas e confissões terapêuticas, que estendem o tempo narrativo criando uma sensação de epifania distanciada e ou um existencialismo cósmico (e flashes como mensagens subliminares), principalmente por seus diálogos e silêncios, sem a inclusão de trilha-sonoras ou excessivamente sentimentais.

O longa-metragem intercala presente e passado (micro-ações flashbacks do que aconteceu). Shows de sucesso com reuniões do Alcoólatras Anônimos e seus depoimentos de sobriedade, embalando músicas que causam “pena” para emocionar, à moda de um Sigur Rós mais manipulador. É orgânico e naturalista. Nossos personagens usam camisas abertas com pêlos aparecendo. E de auto-ajuda, por um sol realista aprisionado mais na ilusão de uma projeção de uma inocência perdida, ingênua e nostálgica.

“A Pé Ele Não Vai Longe” também pode ser um filme de esquetes, de núcleos instantes. O ator Jack Black, por exemplo, entra com o humor pastelão, de potencializar palhaçadas infantis e como uma forma de fuga da própria condição atual. E ou o escatológico, em um que de pós-vivência Bukowski de ser. Um poeta de rua. Um gay-ativista. E pessoas reais. E ou o período do sofrimento da recuperação no hospital com rosas, massagens e carinhos no doente. E ou seus “reflexos sexuais”. Tudo pululado de cúmplices piadas a la “Porky’s – A Casa do Amor e do Riso“, de Bob Clark, brincadeiras defensivas e excêntricas de um “grupo maluco legal”, que ora referenciam “Taxi Driver”, de Martin Scorsese, e ora projetam imaginações.

É sobre a naturalização do submundo da vida. Bêbados e vagabundos contra preconceituosos. Com seu humor ácido nas tirinhas, quase um Henfil. John Callahan fica “famoso nos jornais” e potencializa o tom ofensivo aos hipócritas. É uma fábula visceral. De se viver o passado no presente. De investir atitudes contra mudanças dos grupos ofendidos em um mundo mais politicamente correto, tendo que pedir perdão a todos para se libertar por abordar assuntos tabus. E ou “lésbicas que intimidam”. E “medos inesperados” causados. Há um que de Charlie Hebdo. E ou nosso Laerte. “A Pé Ele Não Vai Longe” é uma afronta. Um manifesto libertário contra a crescente moralidade de um mundo que realmente não sabe como agir em nenhuma ocasião. Não se preocupe, à pé ele não vai longe. Mas o filme vai.


Festival de Berlim 2018: “Don’t Worry, He Won’t Get Far on Foot”


“Don’t Worry, He Won’t Get Far on Foot”, do diretor Gus van Sant, que depois de seu fiasco com “The Sea of Trees”, retoma a boa forma nos conduzindo na organicidade à moda Bukowski de um irônico-ácido-realista cartunista, interpretado irretocável e enlouquecidamente por Joaquin Phoenix.

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