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Inquietos

Vidas que se permitem viver

Por Fabricio Duque

Inquietos

Inquietude significa agitação, desassossego, nervosismo, ansiedade, características estas que podem ser, facilmente, atribuídas aos jovens. Eles vivenciam plenamente as angústias, medos, incompreensões, com extremismo passional e imediatismo crônico, inclusive os momentos felizes, basicamente desencadeados pela paixão incontrolável que sentem ou deixam de sentir em questões de segundos. Tudo é passageiro, mas até passar, expurgam até o último desejo efêmero e visceral. É tão simples visualizar uma geração como a dos adolescentes, porém é extremamente complexa, explicá-la e principalmente transpassa-la ao cinema.

Essa dificuldade não encontra vez na obra do cineasta Gus Van Sant, que consegue dialogar de forma natural, realista e com profunda sensibilidade, às vezes unindo superficialidade a fim de aprofundar, como é o caso de sua obra-prima “Elefante”. O diretor (de “Milk”, “Paranoid Park”, “Last Days”, “Drugstore Cowboy”, “Garotos de Programa”), que prefere trabalhar com atores não tão conhecidos do público, possui total embasamento, já que o tema principal de seu cinema é como os jovens agem, pensam, vivem, licita ou ilicitamente, com ou sem drogas, protegendo-se ou não no ato sexual. “É a parte mais vibrante da sua vida. É o lugar onde você está aprendendo as coisas, pela primeira vez, e talvez para o momento mais importante. Eu acho que esse período de tempo é de intensa criatividade, é quando você está mais esperto. Quando você chegar a ter 23, 24 ou 25, você começa a congelar e torna-se um adulto”, diz o diretor, que distancia tabus, mitiga limites e aproxima uma liberdade, quase enraizada, deixando seus personagens experimentarem o que querem, sem julgamentos pré concebidos.

São jovens, em transição com o mundo adulto, este sim de responsabilidades e comportamentos sociais politicamente corretos. Por conta disso, sempre que um filme seu é lançado, a expectativa é grande. “Inquietos”, o longa-metragem em questão aqui, apresenta-se como seu mais recente trabalho, realizando uma história de amor pura, convincente, quase platônica. É inevitável o espectador não sair melancólico e deprimido, sentindo-se sozinho, vazio, devido ao alto teor de realidade atual, contrastada com a atmosfera nostálgica, atemporal e vintage, por causa da fotografia, que cria majestosamente o cenário, e ou por causa da trilha sonora que afunda mais e mais a atenção à trama.

Enoch Brae (Henry Lee Hopper, filho do ator Dennis Hopper e da atriz Katherine LaNasa) sente-se solitário, invisível e já se considera morto, por causa de uma tragédia familiar. Annabel Cotton (Mia Wasikowska, de ”Minhas Mães e Meu Pai”) é uma paciente terminal de câncer, que tem um profundo amor pela vida e pelo mundo natural. Quando eles se encontram por acaso em um funeral, descobrem muitas coisas em comum em suas vivências de mundo extraordinárias. Para Enoch, isso inclui seu melhor amigo, Hiroshi (Ryo Kase), o fantasma de um piloto de caça kamikaze. Para Annabel, envolve sua admiração por Charles Darwin e seu interesse pela vida de outras criaturas do reino animal.

Ao saber da morte iminente de Annabel, Enoch oferece-se para ajudá-la a enfrentar seus últimos dias com humor e descontração, desafiando o destino, a tradição e até a própria morte. Inúmeros sentimentos afloram, ora resignados, ora desesperados, ora mimados, ora persistentes, porém todos com a incondicionalidade do amor que recebem mutuamente. Esta é a grande questão. O amor pelo amor. Encontrar alguém que não passará a “eternidade”, porque, a palavra anáfora, é o sentido de futuro. Então, quando se possui pouco tempo, a solução é aproveitar e curtir cada momento. Até o mais cético dos espectadores rende-se, pois é um filme que atinge lembranças e sinestesia.

“Inquietos” é simples, direto, emocional, sem apelar a clichês e sem utilizar gatilhos comuns e óbvios deste gênero cinematográfico. Foi rodado inteiramente na cidade de Portland, nos Estados Unidos, com orçamento estimado de US$ 15 milhões. O roteirista Jason Lew pensou na história como uma peça de teatro, mas acabou convencido pela atriz Bryce Dallas Howard a escrever o texto para os cinemas. Lew e Bryce cursaram juntos a Universidade de Nova York. Ela produz o longa ao lado de seu pai, o vencedor do Oscar Ron Howard (Uma Mente Brilhante). Exibido na mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes 2011.

5 Nota do Crítico 5 1

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