Cavalos Roubados

Controle das Emoções

Por Jorge Cruz

Mostra de São Paulo 2019

Um fenômeno muito observado não deveria ser a regra em filmes como “Cavalos Roubados”: a dificuldade de conexão do espectador, que busca na experiência cinéfila, se não somente o escapismo, um tradicionalismo estanque. Isso acaba misturando obras incríveis como essas com uma leva de produções que se utiliza de artifícios que o aproximam de um revestimento artístico quase como um requisito, sem justificar muitas de suas decisões, representações ou abordagens.

No longa-metragem (dirigido e roteirizado por Hans Petter Moland, adaptando o romance homônimo de Per Petterson), no entanto, o deslumbramento da enxurrada de cenas inspiradas e inspiradoras não apenas sequenciam-se na tela de maneira justificada como desafiam aqueles que desejam encontrar qualquer aspecto na mise-en-scène, no roteiro ou nas interpretações que não se conecte ao todo. No momento em que “Cavalos Roubados” é apresentado na Mostra São Paulo de 2019, encontra-se em cartaz nos cinemas brasileiros o filme italiano “Euforia”. Essas obras dialogam entre si, de maneira diametralmente oposta, em apenas um aspecto: a construção de seu protagonista.

A trama de “Cavalos Roubados” nos apresenta Trond (o consagrado ator Stellan Skarsgård), um homem que se considera de sorte por alcançar a tão almejada solidão. Viúvo há três anos, sua esposa morreu em um acidente de carro enquanto ele estava ao volante. Mesmo assim, ele não se considera culpado e não se sente mal por não remoer essa perda, sentindo apenas saudade. Um casamento de quase quarenta anos se encerra de maneira trágica, mas Trond acredita estar diante do ciclo da vida. Sua incapacidade de se sensibilizar na velhice será o objeto brilhantemente trabalhado pelo roteiro. Na crítica de “Euforia” lamentamos o quanto o protagonista Matteo não teve seu pragmatismo e sua frieza trabalhados pelo sub texto, tirando toda a carga emocional da obra. Sendo assim, essa co-produção que reúne Noruega, Suécia e Dinamarca meio que doutrina os realizadores da obra italiana como se esmiuçar uma personalidade.

Os artifícios estéticos mencionados vão do uso sem parcimônia das belas locações (com florestas e lugares cobertos de neve) ao trânsito por várias paletas de cores que deixa nossa visão coberta de cinza sempre que o protagonista não se vê em uma situação confortável ou afável. A fotografia de Rasmus Videbæk recebeu prêmio no Festival de Berlim de 2019 por sua contribuição artística. O roteiro se desenvolve em flashbacks do ano de 1948 em montagem paralela com os últimos dias de 1999. O senhor Trond, sueco radicado na Noruega, reconhece em Lars (Bjørn Floberg) um conhecido de um passado distante e traumático. Quando tinha quinze anos (onde é interpretado por Jon Ranes) o protagonista passou suas últimas férias ao lado do pai no interior daquele país, quando possuía quinze anos de idade. Um período em que uma série de acontecimentos graves moldaram o caráter e personalidade de Trond de forma irremediável. 

Toda essa nordicidade, por óbvio, geraria um longa-metragem carregado de densidade. Só que, por outro lado, Moland utiliza diversas vezes de nuances nas interpretações dos atores e nas construções de imagens paralelas que tiram um pouco a sensação de “obra difícil”. Dois exemplos são a troca de olhares de certos personagens que revelará mais a frente o motivo daquele cumplicidade singela; e a construção de uma trinca de takes (esmagamento de um ninho de pássaros, tiro em um coelho e um assassinato) para resultar em um monólogo sobre aquele instante que antecede o fim da vida, em que o ser tem consciência da morte, mas ainda vive. “Cavalos Roubados” abdica da violência explícita, rasgada e chocante que dita o ritmo do cinema atual para criar de forma mais poética (e tão potente imageticamente) seu temas fortes, principalmente a face mais sombria do passado quando esse lhe faz uma visita. Só que essa abordagem menos simplista sobre a insensibilidade humana, baseada na couraça dura forjada em um trauma juvenil, talvez não consiga angariar tantos entusiastas quanto essa obra merece.

Com um design de som que se transforma no centro das atenções em algumas cenas, o filme segue uma tradição européia de metaforizar na natureza as sensações e interpretações acerca dos dramas ali vividos. Quando dizemos que nenhum elemento se encontra em cena por acaso, podemos ilustrar no figurino do Trond ainda jovem, aquele que ainda achava possível se emocionar. Usando de maneira reiterada um casaco vermelho, é o único que se traveste com um cor quente no meio de um grupo de humanos desesperançosos, como que lutando contra o inevitável ceticismo que se afigura.

O epílogo arremata a mensagem de “Cavalos Roubados” de forma fatidicamente espetacular. Sem ser didático, nos brinda com o senhor Trond questionando o protagonismo da própria vida. Fruto desse passeio pelas lembranças daquele verão tão marcante, eis que nada que lhe sucedeu na vida seria capaz de abalá-lo com alguma relevância. Sua ausência de reação, entendendo tudo o que passou diante de seus olhos como natural, lhe permitiu um controle das emoções que tornou mais fácil o caminhar da existência. Porém, deixou no inverno da vida uma inevitável sensação de vazio. Já para os espectadores, toda essa auto terapia do protagonista nos deixa mais inseguros em relação aos nossos entendimentos – sem deixar de sensibilizar com um desfile de boa técnica cinematográfica.

 

 

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