Euforia

Amar sem Ceder

Por Jorge Cruz

Exibido na mostra Un Certain Regard no Festival de Cannes de 2018, “Euforia” aporta nos cinemas brasileiros antes tarde do que nunca. Com direção e roteiro da experiente atriz Valeria Golino (apenas em seu segundo longa-metragem no desempenho dessas funções), a obra se propõe a trazer uma visão bem menos sentimentalista acerca de doentes em fase terminal. No caso, somos apresentados à história de Ettore (Valerio Mastandrea), vítima de um tumor cerebral avançado de forma que os especialistas entendem que ele possui pouco mais de seis meses de vida. Com essa informação, seu irmão Matteo (Riccardo Scamarcio) decide se reaproximar de sua família, uma maneira de dividir os cuidados a serem tomados com o tratamento meramente paliativo que seguirá até o fim dos dias do irmão.

Os créditos do filme se revelam a partir de uma abordagem muito bonita. A sexualidade do protagonista (única e exclusivamente Matteo) é configurada a partir do uso do corpo masculino em uma brincadeira com música militar, quase um deboche acerca dos costumes mais conservadores. Uma maneira de Golino ousar nos primeiros momentos do longa-metragem, como que tentando deixar do lado de fora da porta do cinema aqueles que não querem se permitir um olhar condescendente a todo o leque de personalidades que desfilarão por sua história.

Há dúvidas se esse chamado cumpre seu objetivo, eis que todo o desenvolvimento da trama mexe de maneira superficial com qualquer assunto que rompa o padrão. Matteo é um empreendedor de sucesso, que se mostra capaz de articular reuniões tanto para convencer o dono de uma empresa de tendas a investir em programa social na África até padres italianos a deixarem de lado seu purismo católico para aceitar uma montanha de dinheiro de um fundo japonês interessado a restaurar uma pintura de mais cinco séculos. Matteo possui resposta para tudo e se vale de frases de efeito como “o negócio do futuro é a misericórdia” e “a beleza protege a beleza”. Ele só tropeça quando transfere toda essa altivez, essa capacidade de ser o senhor do próprio destino, no trato com Ettore. Não há entendimento acerca da vulnerabilidade daquele ente querido, o pragmatismo da relação só é quebrado quando o próprio doente – fora da zona de conforto de sua casa no interior – decide experimentar um pouco da rotina social do irmão bem sucedido.

Assim que “Euforia” nos transporta para a cidade de Nepi, onde mora a família de Matteo, ela tira o peso da vida urbana do protagonista e mergulha no que seria um resgate de laços familiares. O reencontro com a mãe e a lembrança de músicas e nostalgias que tomam conta dos personagens deixa transparecer que o filme parece querer trilhar um caminho mais bem-humorado, construindo seu drama com certa leveza. O único que destoa naquele cenário é justamente Ettore, que mesmo não sabendo que possui um câncer terminal, parece sempre perdido em pensamento, como se a consciência da finitude de sua existência o atingisse em cheio. O grande nó que o roteiro não consegue desatar é permitir que se desse à luz ao co-protagonismo desse personagem. Por boa parte do segundo ato, ele parece transitar pela história apenas para reiterar seu desinteresse pelo que a vida (ainda) pode lhe proporcionar.

Essa escolha pelo foco total em Matteo afina as camadas dessa obra. Quase na metade da projeção continuamos sendo bombardeados com a construção do personagem Matteo enquanto Ettore segue lhe servindo de escada. O texto nega a este o protagonismo a todo o instante, mesmo que o trabalho de reprodução das interações entre irmãos permita a Valerio Mastandrea entregar um trabalho notável de atuação. Fica a sensação de que o longa-metragem, com tanto tempo de duração para se lambuzar na escalada de sensibilidade e dramaticidade, leva seu arco narrativo de maneira fria. 

Da mesma forma que Matteo parece não querer ceder às suas necessidades para prover tudo o que irmão necessita (é só observar o que é feito na madrugada do quarto de hotel nas sequências que se passam na Bósnia), “Euforia” consegue ser inspirado apenas quando mantém a tensão constante no relacionamento entre os dois. Mesmo assim, é possível que essa crueza, esse afastamento que deixa o desenvolvimento de Ettore à margem das duas horas de filme, seja apenas para acompanhar essa auto-suficiência do protagonista Matteo. Pensando dessa maneira, a produção é eficiente por aguentar bem sua caminhada sem descambar para o melodrama. 

Só que “Euforia”, na própria concepção de seu nome, acaba se anulando ao não propor lições, ao não criar disrupções e ao manter-se ao lado de Matteo, que demonstra mais de uma vez sequer ter certeza de suas intenções. Nessa sua forma de amar sem ceder, ele coleciona perde de oportunidades para se entregar aos sentimentos, convidando o público para navegar no mesmo barco em águas pouco desafiadoras. Uma experiência que, apesar de bela, faz o espectador quase tão calculista quanto Matteo, o único que permitiram ter as rédeas da própria história.

 

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