A essência da vida

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Cannes 2018


O cinema em sua essência, além da imagem que agrada aos olhos, é sentir. Transmitir emoções e afinidades. E esta característica, a sétima arte japonesa tem de sobra. Suas narrativas traduzem a naturalidade sentimental, com o preciso cuidado de não errar a receita, e não perder o tom com o excesso. Tudo é conduzido por três “s”: sutilezas, sensibilidades, silêncios; pela mitigação plena de manipulações clichês; e principalmente pela construção da intimidade familiar e suas tão diferentes, subjetivas e complexas identidades.

“Assunto de Família” é um desses filmes que representam este preâmbulo. Exibido no Festival de Cannes 2018, em que saiu o grande vencedor da Palma de Ouro, o longa-metragem, dirigido por Hirokazu Kore-eda (de “Ninguém Pode Saber”, “Pais e Filhos”, “Nossa Irmã Mais Nova”), com seus cinquenta e seis anos, encanta ao adentrar no conceito de “choose family”, em que família não necessariamente vem do sangue.

O longa-metragem busca humanizar os atos ilícitos, os transformando em razões de sobrevivência. Assim, além de um conto familiar, é também uma crítica social de classes menos favorecidas que precisam importar o “jeitinho malandro carioca” para que possam continuar existindo. Inclusive a de deturpar moralidades para os necessários e devidos fins. Contudo, as ações soam com um toque ingênuo, de inocência perdida, à moda do filme “Bande à Part”, de Jean-Luc Godard, principalmente por sua trilha-sonora que indica o perigo iminente em um supermercado.

Nós espectadores somos convidados a participar desta “vida difícil”, de oportunidades não perdidas, e substituir pré-julgamentos por generosas e compreensíveis cumplicidades, visto que após o “indício”, todos compartilham entre eles com humanidade e altruísmo, e por um único olhar trocado, nós sentimos seus dramas e suas fomes. E pela ambientação de uma espirituosa e otimista esperança.

Depois de uma de suas sessões de furtos, Osamu (Lily Franky) e seu filho se deparam com uma garotinha. A princípio eles relutam em abrigar a menina, mas a esposa de Osamu concorda em cuidar dela depois de saber das dificuldades que enfrenta. Embora a família seja pobre e mal ganhe dinheiro dos pequenos crimes que cometem, eles parecem viver felizes juntos até que um incidente revela segredos escondidos, testando os laços que os unem.

“Assunto de Família” desenvolve seu cotidiano. Por elipses e cortes rápidos quer transmitir os espontâneos instantes do dia-a-dia. Não há certo ou errado. O maniqueísmo e suas éticas são atravessadas com a ideia transgressora de uma revolução contra o sistema capitalista, que cada vez aprisiona e engessa mais seus indivíduos comunitários. E é nessa estrutura que a recém-chegada garotinha se embrenha, aprendendo técnicas para não desaparecer e que as melhores soluções podem advir de uma radical decisão, ainda que criminosa pelos olhos hipócritas da sociedade.

A família ajuda-se, entre concessões e compensações. Todas ganham a vida como podem e com o que têm na mão. Como a dança no espelho, refletindo “prazer e intimidade”. Não há a nenhum deles “tempo para brincar”. Precisam ser adultos e “parceiros no crime”. Suas “vidas privadas” estão à margem, errantes em um mundo hostil. Nós aceitamos as artimanhas e as tomamos como partes afetivas. Lutamos por seus sonhos. Por suas escapadas. E até de se redefinir com um novo nome em uma nova vida, que nos faz inferir a “Mãe Só Há Uma”, de Anna Muylaert.

“Assunto de Família” nos “conecta o coração” e a um “senso de moda”, mas nunca força à nada. A garotinha recebe amor e o simbolismo possível de queimar seu passado. O tempo passa. As crianças crescem. Os adultos envelhecem. A ordem natural da vida flui suas obrigações do ciclo do universo. Torna-se mais complicado. O mundo mudou. Está mais ajustado às ilicitudes. Não, não são mercenários, só precisam sobreviver. Ainda que a “modernidade” chega em um novo tempo, os problemas são antigos e já muito bem conhecidos.

Quando o confronto final é inevitável, nós nos contorcemos na cadeira do cinema com a sinestesia das lágrimas brotadas e da “consciência”, tudo envolto na poesia da natureza: a chuva e a luz. Neste instante, quem assiste é acometido de uma melancolia, de um saudosismo de uma época diferente. De se salvar pela “quietude”. Da felicidade dos fogos de artifícios, da praia, de comer, beber, viver e amar com o mais intrínseco do humor perspicaz, de plena liberdade não rotulada, de sã naturalidade em lidar com a morte, como se fosse apenas um estágio de evolução, uma viagem a um lugar melhor. E para concluir, transformar a existência da vida com a mais pura e ousada leveza. Quem está certo, eles ou os outros? Quem merece os créditos de melhor qualidade de vida? Apesar de todas as Intempéries, esta família consegue completar a missão terrena de fazer o bem sem olhar a quem.

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