Cadê, Edson?

A Força dos Oprimidos pelo Estado

Por Vitor Velloso

Crítico convidado pela Mostra de Tiradentes 2020

Dentro da programação da Mostra de Cinema de Tiradentes, os documentários da Mostra Aurora costumam ser destaque unânime durante a competição. “Cadê, Edson?” de Dácia Ibiapina é uma circunstância consciente de um processo político que a obra orienta para uma abordagem clássica da narrativa, mas que consiste em ser contundente em seu posicionamento acerca dos acontecimentos projetados na tela.

Dentro da realidade nacional, obras como “Parque Oeste” (exibido no mesmo festival em 2019) e o longa de Dácia retomam a importância das lutas sociais no Brasil, que com o atual governo responde violentamente a toda e qualquer manifestação anti-neoliberal. A postura dúbia que cerca a grande maioria das questões que estão relacionadas a Edson são desconstruídas através das imagens de arquivo, onde a mídia busca um viés reacionário no tratamento, além de entrevistas ocasionais que surgem ao longo do documentário. Esse retrato da realidade nacional, tão ignorado por um grupo de cineastas que insistem gravemente em se voltar ao passado em tom derrotista e fracassado (caso do indicado ao Oscar “Democracia em Vertigem”, de Petra Costa), acabam por destratar da contemporaneidade como um fato histórico muito maior do que um acontecimento específico em si.

O mais interessante é que e, “Cadê, Edson?” a diretora não se prende exclusivamente à violência do Estado, ao o reacionarismo crescente da população brasileira e/ou à construção de um movimento social. A preocupação aqui é um pêndulo entre a contextualização da situação daquele período retratado com o atual, mas aliado à ideia de estar contando o percurso que Edson, o protagonista, membro do MRP (Movimento Resistência Popular). Funcionando muito bem sob o ponto de vista de denúncia da injustiça generalizada com todas as pessoas que estão inseridas na história, o longa-metragem se revela uma obra que descentraliza sua ideia titular (visto que abre eixos sobre o mesmo acontecimento), enquanto viraliza com o mapeamento de toda a situação política daquela região, ainda que o enfoque seja a ocupação onde Edson foi preso.

O filme acaba tendo algumas “barrigas” que atrapalham seu desenvolvimento geral das proposições de embate direto a essas resistências reacionárias da vida de pessoas privadas de direitos mais básicos enquanto seres humanos e cidadãos. Perde um pouco a oportunidade de discutir a questão histórica que envolve Brasília, a cidade mais higienista do Brasil. Entretanto, consegue adicionar toda a dualidade ideológica e política que vivemos há alguns anos, culminando na atual circunstância que nos encontramos hoje, tudo isso sem soar oportunista. A intenção de Décia é mais honesta e singela do que isso. É realmente compreender aquelas pessoas que estão ali presentes e disponibilizam de seus corpos e vidas para sobreviverem, mas principalmente ajudar quem deve ser ajudado.

O documentário se fixa em uma abordagem contemporânea no trato de sua narrativa, pois consegue fazer esse fluxo entre os diferentes tipos de linguagem e funcionar sem impor um preciosismo formal por pura recepção. Quando perde muito tempo em uma mesma cena (ou tocando na mesma tecla), não o faz com intuito de panfletagem de ideologias e acontecimentos, mas sim como um retrato dessa veracidade humanística que é ameaçada por quem deveria protegê-la. Neste ponto, a construção da cineasta é no sentido de apontar os culpados e principalmente os apoiadores da violência contra toda essa população, grupo que fundamenta de maneira bastante ideológica um chamado avanço “necessário” contra os comunistas.

“Cadê, Edson” é eficaz em seu discurso e consegue oferecer ao espectador uma condição bastante positiva, ainda que não por meios, das mudanças que podem vir a ocorrer nas lideranças desses movimentos sociais que eclodem ao redor do país. Representante, sim, mas as ideias e as condições de vida são impossíveis de serem mortas ou presas. O documentário acaba ocupando essa problemática, qual seja, a consagração da teoria direta que grita em palanque necessitado. Sem audiência e sem chão, Edson berra sozinho. Ele é o grande personagem central, aquele que, ao mesmo tempo em que corre atrás de seus direitos, pede à população brasileira que não dê as costas a todo aquele povo que está ali com ele, nas telas.

Por fim, um alívio durante a Mostra Aurora, que repleta de padrões criados por ela mesma, vem demonstrando uma intensidade pouco criativa para quem prega uma temática tão inventiva. Mesmo assim é um projeto que não consegue sair da zona de conforto do campo documental.

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