Mostra Um Curta Por Dia - Repescagem 2025 - Novembro

Bugonia

Salvem o Planeta Verde!

Por João Lanari Bo

Festival de Veneza 2025

Bugonia

Bugonia”, o novo longa do grego Yorgos Lanthimos, mostra como um diretor oriundo de um país periférico da Europa – a Grécia – e afeito a um tipo de linguagem original e provocativa, é capaz de se impor no âmago da indústria cinematográfica, Hollywood e agregados. Não é tarefa fácil, requer obstinação e talento, naturalmente. Se no país natal realizou filmes intrigantes como “Dente Canino” (2009), “Alpes” (2012), “O Sacrifício do Cervo Sagrado” (2017) e “O Lagosta” (2106), quando fez o upgrade e migrou para o olho do furacão capitalista, adaptou a verve e lançou “Pobres Criaturas” (2024) e, no mesmo ano, “Tipos de Gentileza” – uma épica, surreal, absurda, fisiológica, orgânica e psicanalítica aventura, como definiu o crítico deste Vertentes.

Yorgos se firmou como um hábil manipulador de inquietudes e violência: o Variety, o mais tradicional veículo da imprensa do entretenimento, cunhou o termo “misantropia esclarecida” para enquadrar, se é que é possível, o estilo do grego. “Bugonia” pode ser pensado como sátira, uma forma de crítica social ou política que utiliza o humor, a ironia, o exagero e a ridicularização para expor e comentar falhas e vícios – mas, ao mesmo tempo que cultiva traços clássicos do gênero, vai além. Centrado em um duelo de dois personagens ambíguos, na falta de uma melhor palavra para conceitua-los, o filme desenvolve um arco de tipologias tóxicas enquanto fornece informações que amarram a trama e, no limite, descamba para uma fantástica solução ao modo, digamos, Mario Bava.

A primeira personagem é Michelle (Emma Stone), CEO de uma farmacêutica, Auxolith, instalada em um edifício hightech de aço e vidro. Solteira, tem uma rotina rígida e implacável, mas condescendente – armada de um sorriso falso, mantem um retrato com sua xará Michelle Obama no escritório e insiste que seus funcionários terminem o trabalho às 17h30. Acorda de madrugada para malhar, inclusive luta marcial, e tem na ponta da língua o vocabulário das executivas bem sucedidas, maniacamente dedicada a gerar uma imagem de transparência e eficiência. Para arrematar, foi capa de revistas como “Time” e “Fortune”. Uma estrela do mundo corporativo, enfim.

Em contraponto a Michelle, Teddy (Jesse Plemons), é um apicultor e empregado part time da empresa farmacêutica, morador em uma casa deteriorada nos arredores da cidade com seu primo Don (Aidan Delbis) – meio hippie, meio carrancudo, cabelos longos e oleosos, ele é adepto de uma teoria absolutamente individual, ou seja, só ele está ciente dela: o planeta Terra está ameaçado de destruição por tipos disfarçados de humanos egressos da galáxia de Andrômeda. A liderança desse ignominioso complô pertence a ninguém outra que – claro, Michelle.

O que seria uma aventura clichê, é subvertida inapelavelmente pelas performances preciosas de Stone e Plemons. Teddy, com a (canhestra) ajuda do pupilo Don, sequestra Michelle e raspa sua cabeça: a vingança justifica-se, no plano da realidade psicológica, pelo estado vegetativo que a mãe ficou depois de participar de testes de uma nova droga opiácea da Auxolith. No plano do imaginário conspiratório, trata-se da salvar a humanidade. Um enredo, aliás, inspirado pelo cult coreano “Salvem o Planeta Verde!”, realizado por Jang Joon-hwan em 2003, uma mistura de comédia, ficção científica, terror e humor. Mas o embate retórico que se estabelece no porão da casa de Teddy proporciona momentos de forte impacto, elevando “Bugonia” a uma parábola de pessimismo filosófico, de confrontação entre racionalidades opostas, a do capitalismo gerencial de Michelle e a obsessão paranoica de Teddy.

Nesse espetáculo que flerta com uma violência subjacente, a suposta ingenuidade de Teddy pode parecer revestida de uma lógica particular, que faz que seu delírio se afigure convincente. Michelle, por seu turno, centrada em uma postura glacial e objetiva, utiliza com tática a adesão ao projeto de Teddy, e exclama: eu sou uma alienígena! Ambos, Michelle e Teddy, terminam por apresentar retratos dramaticamente categóricos de seus personagens.

Nesse mundo pós-internet – Teddy “adquiriu” seus conhecimentos sobre a galáxia de Andromeda pesquisando solitariamente em casa, enquanto Michelle parece ter construído sua persona corporativa em cima das redes sociais – o que sobra de uma encrenca como a do filme de Yorgos? o fim dos tempos? uma viagem sideral? ou ainda, como pode ser apreendido do significado da palavra “bugonia”:

A palavra “bugonia”, derivada do grego antigo e traduzida como “nascimento do boi”, descreve um ritual presente em textos clássicos, como o poema Geórgicas, de Virgílio. Esse rito envolvia sacrificar uma vaca para que abelhas supostamente surgissem espontaneamente de seu corpo – uma forma mística e improvável de renovar uma colmeia.

4 Nota do Crítico 5 1

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