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Pobres Criaturas

A estranheza possível de uma existência

Por Fabricio Duque

Festival de Veneza 2023

Pobres Criaturas

No contemporâneo mundo de consumo rápido, relações líquidas e de auto-exílios voluntários em que vivemos, quem tem atitude, é rei, por não seguir as tão padronizadas convenções dos automatizados comportamentos sociais, permitindo-se existir como estranhas criaturas, que externam suas mais idiossincráticas e excêntricas das mais genuínas características individuais. Para os gregos, tudo isso representa a metáfora-essência, que acontece a partir das vivências e das consequentes escolhas. Cada ser humano nasce com a mais incondicional das liberdades. E depois, é “jogado” para seguir seu caminho dentro do meio designado, precisando assim responder non stop vezes ao contexto que está inserido. Yorgos Lanthimos é um bom exemplo desse “rei”. Um grego que não se rendeu ao modelo fácil de se fazer filmes e que resolveu se impor com sua não convencional narrativa de estranheza etérea-metafísica-existencial, e que de forma globalizada, atravessou geografias e nações, quebrando a bolha ao trazer o diferente às telas do cinema. Suas obras são experiências visuais de linguagem. 

Seu mais recente, “Pobres Criaturas”, integrante da mostra competitiva do Festival de Veneza 2023 (vencendo o Leão de Ouro de Melhor Filme) consegue ainda mais transpor os limites da própria imagem. Aqui, o filme nos convida para uma épica, surreal, absurda, fisiológica, orgânica e psicanalítica aventura. Uma fábula de uma existência. De um ser reconstruído. Por uma trama que acompanha a personagem em suas adaptações físicas, as cognitivas e automotoras, às psicológicas, as de formação de seu caráter perceptivo do maniqueísmo social. “Pobres Criaturas” é inspirado livremente na obra “Frankenstein”, escrito por Mary Shelley, entre 1916 e 1918, quando tinha apenas 19 anos. Mas na versão lisérgica de Yorgos, o longa-metragem ganha camadas, muito mais filosóficas e complexas. Nesta, o “monstro” é uma mulher que a cada momento descobre um novo “estereótipo”, uma nova necessidade de defesa, uma nova “função” de servir, uma nova força, uma nova limitação. Essa “Bella” aprende que só o crepúsculo não a atende. Ela quer o mundo. Quer explorar todo o “movimento” impulsionado do Universo Celestial. Visto que este ser é uma “aberração”, voltada à vida por um humano “deus”. 

“Pobres Criaturas”, passada em uma era vitoriana evocada ao presente, constrói um metafórico-estético-futurista conto-de-fadas realista, em que este ser acompanhado passará por todos os estágios, reações e sentimentos universais. Este filme é um prato cheio a todo e qualquer psicanalista, porque traz a racionalidade da neurociência ao optar pelo caminho de que o cérebro é plástico. De que se reconfigura a cada nova experiência e, a cada escolha do livre arbítrio, em que a ação de um comportamento gera a probabilidade do novo comportamento, igual ou diferente, e por conseguinte, uma nova configuração, “melhorando o afunilamento para a direção do que se quer”. Dessa forma, “Pobres Criaturas” é um filme de situações. Uma ação pode modificar totalmente a reação. E também de crescimento, cujo novo conhecimento define a gravação de uma nova característica despertada. Nós somos um conjunto de algoritmos sistematizados, que possuem a função de nos equilibrar mentalmente. É por isso, que sem sabermos, nós trazemos psicoses intrínsecas (as que não podem ser tratadas como distúrbios ocasionais) e uma dose de psicopatia. Ao recriar, o ser precisa nivelar seu cérebro, suas vísceras, suas emoções, seus impulsos sexuais, seus controles automotores e suas escatologias. 

Outro ponto focal de “Pobres Criaturas” é a questão da solidão crônica. De um eterno abandono. De uma sensação delirante. Que culmina na desordem do pensamento, ilusões de grandeza, delírios de referência, carência de companhia. Seu criador quer que sua “coisa” seja perfeita, a seu gosto sua criação sempre presente, como, por exemplo, alguém que sequestra seu “amor” para não dividi-lo com o mundo. Essa posse traz toda uma incompatibilidade social, ora por ter sido ridicularizado anteriormente, ora por não aceitar ser naturalmente divergente. Inevitavelmente, “Pobres Criaturas” (baseado no livro homônimo do escritor britânico-escocês Alasdair Gray, que escreveu em 1982) infere a muitas referências. Essa pobre criatura embarca em um mundo paralelo à moda de “Alice no País das Maravilhas”, de “Pinocchio”, de “Barbie”. Sim, este é um filme acima de tudo romântico. Seu amor é diferente e bem longe das tradições expostas de nossos meios integrados. Sua paixão vem de dentro. De uma transcendência inexplicável. De um submundo em que apenas a mais verdadeira das essências reside. 

Sim, Yorgos Lanthimos consegue criar esse mundo estranho e bizarro. Consegue extrair o máximo de naturalismo realista de seus atores, especialmente na atuação da atriz Emma Stone, possuída, libertária, entregue totalmente à alma de sua personagem e sem resquício algum de se preservar com a exposição. E levando a última potência uma das máximas da filosofia grega: “Você nunca fará nada neste mundo sem coragem; é a melhor qualidade da mente ao lado da honra; e a educação tem raízes amargas, mas os seus frutos são doces”. E para finalizar, a grande maestria de “Pobres Criaturas” não está somente na consequência de que não se conseguimos definir a obra (não a limitando e não a matando), mas sim em acreditar em seu processo despretensioso, abusado, espirituoso, perspicaz, astuto, inocente e não modificá-lo para agradar a gregos, troianos e hollywoodianos em geral. 

5 Nota do Crítico 5 1

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