Brincando com Fogo

Cota Esgotada

Por Jorge Cruz

Pelo visto Hollywood perpetuará por toda eternidade um grupo de filmes com as mesmas histórias recicladas com apenas algumas ligeiras alterações de ambientes e contextos. “Brincando com Fogo“, assim como “Um Tira no Jardim de Infância” (Arnold Schwarzenegger, 1990), “Fada do Dente” (Dwayne “The Rock” Johnson, 2010), “Operação Babá” (Vin Diesel, 2005) e outros em uma lista infinita repetem a velha piada do ator de ação gastando sua testosterona extra com um grupo de crianças. Se puder colocar um cachorro, melhor ainda.

Talvez por isso a obra una a Paramount com o braço cinematográfico da Nickelodeon (que acabou de lançar Dora e a Cidade Perdida). A única atualização que o roteiro de Dan Ewen e Matt Lieberman (tão elogiado por “A Família Addams“) faz é trazer uma pertinência temática com a história de bombeiros que atuam em uma brigada ambiental, aproximando o argumento do debate cada vez mais presente acerca dos grandes incêndios nos Estados Unidos. Não é nenhuma surpresa que nada desse fiapo de relevância seja utilizado.

A ideia por trás de “Brincando com Fogo” é testar a popularidade do ator e lutador de John Cena no papel de protagonista de uma filme familiar. À primeira vista ele parece tão carismático quanto alguns dos astros acima citados eram na transição para a atuação. Todavia, tendo como alívio cômico Keegan-Michael Key é provável que seu trabalho pareça melhor do que de fato é. Seu humor é datado, pouco engraçado e totalmente independente do pouco de história que o texto de Ewen e Lieberman se propõe. No que talvez seja o maior incômodo do longa-metragem dinâmicas de algumas sequências são interrompidas para que caretas e escatologias gratuitas possam desfilar pela tela.

Há de se lamentar a pobreza do personagem Rodrigo, interpretado pelo veterano John Leguizamo. No papel de um imigrante latino, ele passa todo o filme preocupado em lançar trocadilhos e piadas a partir de erros semânticos, além de citações erradas de personalidades – expediente usado desde Magda do “Sai de Baixo” até Kelly Bundy de “Married with Childen“, passando pelo Chapolin Colorado. Uma comédia física que se resume a um bando de bobões que não sobreviveram a uma chuva forte na vida real, quase uma “Loucademia de Polícia” (1984) versão bombeiros quarenta anos depois que rimos dessa piada.

Mesmo quem se conforma com a falta de ofensividade no humor de “Brincando com Fogo”, não pode negar a ausência de ritmo na obra. Exige muito boa vontade do espectador transformar aquele combinado de gracinhas em um produto engraçado. Sempre que as gerações se renovam, a demanda por filmes assim volta a ser pauta. Todavia, não há nenhuma diferença na qualidade do material desse longa-metragem com “Os Parças 2“, produção nacional que entrou em cartaz um mês antes, por exemplo. Claro que visualmente uma obra hollywoodiana ganha pontos, uma vez que o orçamento é muito maior. Mesmo assim, tirando introdução e conclusão, onde o elemento da aventura exige cenas mais complexas, o miolo do filme não traz nada ostensivo.

Por isso o debate sobre uma reserva de tela eficiente precisa ser retomado no país. É de se lamentar que dentro da chuva de novos filmes que aportam semanalmente nos cinemas, uma ou duas obras dessa natureza ganhem espaço em centenas de salas pelos shoppings de todas as regiões. Uma diversão descompromissada, que fatalmente atrai uma parcela do público que paga ingresso. Muitas produções se tornam até mesmo clássicos improváveis – sendo o exemplo mais significativo “As Branquelas” (2004), que os adolescentes da época e os que se seguiram anos depois consomem diariamente na televisão por assinatura. Só que há um volume de espectadores que assistirá “Brincando com Fogo” simplesmente porque ele estará disponível no cinema mais próximo no sábado ou domingo à tarde. Quantos sairão sorrindo de orelha a orelha enquanto dizem que o cinema nacional não faz nada de bom?

Por mais incrível que pareça, a piada mais grosseira, envolvendo cocô de criança (uma constante em filmes do gênero “turminha da pesada”), é uma das poucas que usa os elementos possíveis do posto contra incêndio florestal que o estúdio gastou milhões para construir. A direção de Andy Fickman é o que é, desenvolvendo o trabalho para o qual foi contratado. Ele já havia sido testado em obras como “Segurança de Shopping 2″ (2015) e em outro filme que se junta aos exemplos de mistura de homens bombados e crianças, “Treinando  Papai” (2007).

Quando percebe que precisa deixar uma mensagem edificantemente rasa, o roteiro tenta emular no protagonista John a falta de conhecimento de mundo típica de Tarzan e Mogli. Não foram feitas menções às personagens femininas de “Brincando com Fogo“, é verdade. Elas estão lá, cumprindo sua cota de presença e representações carregadas de uma desconstrução soft. É provável que Alison Bechdel sugira tacar fogo nessa obra, tão envelhecida que os poucos sorrisos foram guardados para a óbvia cena de erros de gravação que fatalmente viria com os créditos.

 

 

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