Dora e a Cidade Perdida

Plot nostálgico

Por Felipe Novoa

Antes de começar, “Dora e a Cidade Perdida” é um filme sobre um desenho infantil, não se esqueça disso, porém o filme surpreendentemente consegue ser divertido para qualquer um. O desenho original da Nickelodeon é exibido desde 1999 então tenho que admitir que do alto dos meus 22 anos de idade eu tenho uma memória afetiva forte com esse desenho criado para ensinar inglês a crianças pequenas.

O plot cobre a busca dos pais de Dora pela cidade Inca perdida de Parapata, a mudança de Dora para a cidade grande depois de crescer anos na selva e sua adaptação a esse novo ambiente hostil, o reencontro com o primo, o desaparecimento dos pais, etc. A narrativa é bem linear e segue uma fórmula bem simples de três atos que apesar de ser um pouco previsível consegue ser muito efetiva devido o público alvo.

A nostalgia é algo muito utilizado em “Dora e a Cidade Perdida” por motivos óbvios, o desenho está sendo exibido a quase vinte anos e quase todo mundo que eu conheço já assistiu ao desenho em algum momento na vida, seja como o público alvo ou pais que foram forçados pelos filhos pequenos a aguentar os 15 minutos de duração de cada episódio. O roteiro consegue ser divertido para todas as idades. Você tem desde piadinhas bobas de flatulência até observações self aware que são hilárias como os Dora falando com a câmera e seus pais se preocupando com a possibilidade de ela ser esquizofrênica.

O núcleo jovem dos atores jovens consegue ter uma química legal que infelizmente é testada durante uma forçação de barra para um lado heteronormativo e muito previsível com o “romance” do Diego com a Sammy chegando no fim do filme. Já o Randy e tem algumas piadinhas meio forçadas com a Dora tentando ir pro mesmo lado mas que são mais ele tentando não se sentir desconfortável com as situações de silêncio geradas por sua timidez e pela falta de habilidade social da Dora do que um romance em si. Os quatro jovens conseguem entregar uma atuação engraçada nos momentos certos e tem reações e hábitos realistas de pessoas de uns 17 anos de idade que eu não vejo a tempos.

Quanto ao CGI, é bom em tudo menos o Botas e o Raposo. O raposo se move de forma muito estranha, não é nada fluído e ele parece um bonecão. Já o Botas é um exemplo claro do que não deve se fazer num desenho infantil, ele caiu muito feio no uncanny valley e parecia o Sonic antes daquele backlash todo por ele ser assustador. A sorte é que o Botas não fica muito tempo na frente das câmeras mas felizmente quando fica ele tem alguns momentos divertidos que quase conseguem te distrair da desgraça que ele é, principalmente a conversa repentina com a Dora depois que ela se acidenta (o Danny Trejo dubla o Botas e o Benicio Del Toro dubla o Raposo no original em inglês e essa descoberta foi bem repentina já que eu assisti o filme em português e isso só aparece nos créditos finais).

“Dora e a Cidade Perdida” é cheio de referências que só os espectadores mais velhos vão pegar como todas as semelhanças com o “Indiana Jones and a Última Cruzada” culminando na cena de ação final no templo de Parapata que é praticamente um remix da cena do cálice. Tem também o Cole, pai da Dora, falando sobre os perigos da cidade grande e citando raves com uma versão própria que causa muita vergonha alheia de Darude Sandstorm. E a Dora num momento fala miércoles (quarta-feira em espanhol) e não merda, que é um detalhe curioso visto que o filme tem classificação indicativa de 10 anos, é o mais perto de uma F bomb que o filme chega e é feito de forma que não ofende e consegue te arrancar pelo menos algumas risadas.

A Sammy é um personagem realmente interessante, ela vai de quase meio que mais ou menos antagonista da Dora para amiga no fim do filme, sua fama de de over archiver no colégio é negativa e isso faz ela ter uma atitude competitiva quase hostil para com seus colegas mas que é compreensível devido a situação dela como mulher negra no ambiente feroz do ensino médio. Ela quer ser bem sucedida e é vendo como os EUA estão organizados no momento o comportamento dela é ok. Essa mini arco é algo que a direção quase explora mas não consegue por motivos óbvios: estaria fugindo muito da história e entra num nível de discourse que o filme não precisa e não comporta. Sammy deveria ser um comentário político e social sobre protagonismo feminino não branco que não combina com o tom do filme e que se não fosse um filme infantil  e da Nickelodeon poderia ser explorado a fundo.

As várias referências ao desenho original são bem claras durante toda duração de “Dora e a Cidade Perdida” (logo depois dos créditos finais tem uma cena curta, simples e que consegue amarrar muito bem o filme de forma muito nostálgica), as muitas músicas que a Dora canta e que causam estranhamento, vergonha e raiva aos outros personagens mas que me fizeram cantarolar junto. Os animais coloridos e a repetição de seus nomes também conseguem fazer troça da forma pouco natural que eles são apresentados no desenho. Parece que essa série de referências e piadas vai se tornar cansativa bem rápido mas é justamente o contrário, em cada uma delas eu me divertia e a sala toda do cinema reagia de forma positiva. No fim só posso recomendar como uma opção simples e divertida pra quem vai levar alguma criança ao cinema.

 

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