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Blackout – A batalha final

Fora o baile

Por Vitor Velloso

Cinema Virtual

E o streaming brasileiro continua sua jornada de eleição das bombas mais agudas do ano, desta vez o candidato é “Blackout – A Batalha Final” de Egor Baranov. Uma ficção científica digna de caretas consecutivas em suas sequências. Mas as coisas são piores que parecem. 

O projeto é uma espécie de importação da forma e do discurso, uma coisa meio tacanha de criar uma ideia de nacionalismo através de uma distopia, onde os alienígenas tomam conta da trama etc. É um projeto B travestido de grande produção. No fundo, os efeitos especiais são uma tosqueira sem fim e todo o massa-véio que eles tentam emular, não passa de uma cópia atravessada de colagens de projetos anteriores. O longa pega alguns elementos de “13 Horas – Os Soldados Secretos de Benghazi”, algumas coisas de “Prometheus”, outras de “Blade Runner” e no fim, só consegue umas risadas tímidas do público. Seus pontos são sempre os mesmos, a fragilidade da moral humana, a ética do Estado, a dificuldade de se combater inimigos que não compreendem, algumas tentativas de estimular a ação etc. E nesse balaio tem uns planos sequência tenebrosos, umas músicas capengas e um dramalhão que não flui. 

Contudo, o pastiche de filme norte-americano vai além. As cenas de tiroteio são longas e as constantes tentativas de dramatizar no meio do tiroteio, incluindo cenas de câmera lenta, são tão vexaminosas que o espectador se vê perdido no excesso de informação. Não há propriamente um direcionamento no projeto, as coisas são dadas a esmo e sempre mirando o caminho fácil, a persuasão pela violência. E, como sempre, a espetacularização da morte, da guerra. É o espírito da burguesia acovardada que precisa de sua válvula de escape, pois não conseguiram destronar as instituições. Não consegue nem chegar num Peter Berg, que transforma o nacionalismo em forma, ultrapassa o Michael Bay e estiliza a violência. A gangrena é tão acentuada que em “Blackout – A Batalha Final” as coisas descambam para uma tentativa de tornar a narrativa mais filosófica e sentimental no ato final. Com uma paleta de cores verdes, uma montagem que vai abrindo e fechando os planos, na intenção de redimensionar todo aquele universo àquele espaço. 

Quanto mais o longa se aproxima desse imaginário da ficção científica e se distancia do massa-véio puro, o público vai perdendo grande parte do interesse, pois o diretor é incapaz de construir alguma estrutura concreta para a obra, tudo vai se tornando retalho de ideias retiradas de outros lugares e essa mistura toda não chega a lugar algum. É um projeto meramente estético de prazer burguês, através dessa necessidade constante de reforçar masculinidades, a honra, a ética, as instituições como objetos falhos de uma sociedade em perigo e a mídia tomada de terror. Egor Baranov possui uma carreira de múltiplas tentativas de internacionalizar seus filmes, sempre buscando a padronização desse capital de mercado cinematográfico que cerca a Rússia. Não à toa, já dividiu direção com Alexandr Kott, diretor de “Terremoto de Spitak”. Juntos, fizeram um “Se beber não case” importado e copiado. 

Aparentemente há uma geração de cineastas que tornaram a ceder às tentações burguesas, há financiamento de todos os lados e propostas de distribuição. O dinheiro segue falando mais alto. São essas pessoas que seguem criando problemas para o streaming brasileiro, que deve sempre pensar em elencar seus piores projetos. Mas aparentemente as propostas de distribuição dos filmes da lógica burguesa, da moral cristã e da distribuição virtual mambembe, vão seguir a todo vapor colonizando o público brasileiro. Afinal, temos espaço para colocar uma penca de filmes internacionais de quinta categoria, mas não para um único filme brasileiro, que siga qualquer lógica. Mas esse tipo de “desvio” não combina com o mercado que mais importa e exporta, como o nosso. A cultura nacional vai mal e os serviços de streaming estão reforçando seu desmembramento, projetos alienantes e estrangeiros. 

“É o problema que temos, todos os desenhistas. Talvez, no início, muitos de nós queremos chegar a ser artistas. Mas a arte, para mim, é algo que faz vibrar por dentro.” Quino

Descansa em paz com Mafalda. Siga na memória, pois nem de dentro as distribuidoras brasileiras conseguem olhar. Fora o baile!

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