Benedetta

A trindade e suas dúvidas

Por Vitor Velloso

Durante o Festival do Rio 2021

Benedetta

“Benedetta” é menos escandaloso do que muitas pessoas sugerem e ainda mais provocativo com relação aos dogmas católicos. O novo filme de Paul Verhoeven é uma história de desejos, crenças, verdades, corrupção institucional, ânsia pela violência, sofrimento etc. Em resumo, é quase uma síntese da Igreja Católica em uma narrativa que entende a relação de seus personagens através da proibição, funcionando como uma imposição de novos limites, não apenas para a fé das protagonistas, mas para uma encenação que transita entre a intimidade e o apocalipse com poucas vergonhas.

Conforme as tensões internas crescem exponencialmente e as mentiras se amontoam, “Benedetta” passa a dialogar com diversas percepções dos mesmos fatos, ironizando parte da mitologia cristã, quando não zombando do fanatismo plástico que rege parte desses ritos. Verhoeven cria uma reverência iconoclasta aos totens e paradigmas que vão se desfazendo com grandiosidade. A cena do suicídio é exemplo claro disso, onde todos miram o céu na expectativa de um evento catastrófico que irá modificar a sociedade, eis que o cadáver atinge o chão e os lamentos se confundem com preces. E esse é o sentimento operante na maior parte da projeção do filme, como o sofrimento católica mira a redenção mas só encontra dor com poucas, ou nenhuma resolução. A própria questão metafísica se mantém ambígua, procurando correspondências no mundo material e falhando na percepção individual dos eventos. A fé deturpa e constrói na mesma medida.

Por essa razão, o espectador é incapaz de perceber onde a manipulação termina, tanto de Verhoeven quanto da protagonista, se existe e quais seus limites. Talvez esse imbróglio fatal seja o grande eixo que mantém “Benedetta” de pé, o compilado de dúvidas insolúveis e perguntas tão deselegantes quanto suas possíveis respostas. De toda forma, é onde o diretor consegue desenvolver seus extremos sem perder as transições de vista, quanto mais próximo estamos do fim do longa, as certezas parecem cada vez mais irrelevantes. Está certo que o ato de espiar a masturbação com um símbolo cristão e as múltiplas lembranças de Sodoma não se encerram na exposição. A própria praga que acomete os “pecadores”, é uma espécie de purificação entre o ódio e o amor. Para cada vez que a possível voz Dele ecoa, percebe-se que a ira e a redenção diante do sofrimento são acompanhadas pela face assustada de seus personagens, que passaram a vida crendo em silêncio e agora presenciam na carne resoluções antes apenas citadas. A fotografia expõe bem como os contrastes nunca são rígidos a ponto de manter os segredos intactos.

“Benedetta” não funciona como uma grande crítica à ideologia do inconsciente cristã, mas sim como um ataque direto à consciência da mesma, à burocracia, à podridão sistémica e aos grilhões que mantém cada um dos personagens com seus egos à beira do abismo. A tentativa de defender o título, esconder-se atrás da proteção papal ou a auto-imolação, são reflexos de uma mentalidade que é decadente em si e apenas procura o fim no outro. Não por acaso a encenação é a expressão máxima desses extremos, em parte da experiência tudo soa artificial e excessivamente maniqueísta. Em outros momentos, o rigor dos espaços é representado como ornamentos práticos. Nessas constantes ambiguidades, a dualidade na representação feminina proposta por essa fé que se fragmenta, em alma e corpo, em duas personagens distintas que passam a trocar experiências, é que o filme consegue um efeito curioso com um encerramento tão abrupto. O retorno não é visto pela intimidade, mas pela grandiosidade da paisagem, de um plano geral que deixa para trás uma figura sempre misteriosa. Agora sem convite para seguir na narrativa, o orgulho parece ser uma chaga incurável.

Se esse jogo funciona bem pela polarização, o mesmo não pode ser dito sobre as palavras finais, que apenas relembram um caráter histórico pouco explorado por uma obra mais preocupada pelo que não pode representar materialmente.

Trailer

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