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Bar Doce Lar

O anacronismo programado

Por Vitor Velloso

Amazon Prime Video

Bar Doce Lar

Estrelado por Ben Affleck, Tye Sheridan, Lily Rabe e Christopher Lloyd, “Bar Doce Lar” é mais um projeto que demonstra as incertezas de George Clooney na direção de um longa. Seus últimos filmes explicitam o tom desconcertado de uma abordagem que procura transitar entre gêneros distintos, seja na comédia ou no drama, na reinterpretação histórica ou na paródia da própria estrutura. “O Céu da Meia-Noite” (2020) foi uma desinteressante ficção científica, ancorada em uma relação clichê e resolução previsível, “Suburbicon” (2017) mostrou à indústria que “Caçadores de Obras-Primas” (2014) não havia sido o ponto mais baixo de sua carreira. Agora, já introduzido no streaming, Clooney mantém a investida dramática, construindo um filme que possui pouca motivação interna, mas muita projeção de estereótipos perpetuados por Hollywood.

Não por acaso, o espectador que seguir até o fim de “Bar Doce Lar” irá perceber que toda a caracterização de época, relacionando a paixão literária de seu protagonista com a moralidade da sociedade a seu redor, está a serviço de uma superação do passado. É uma estrutura bastante conhecida: uma crítica rasteira aos problemas da disparidade social dos EUA, da família disfuncional, da ausência paterna, do autodescobrimento e da necessidade de virar a página, esta última funcionando de maneira literal e irônica. Porém, a abordagem que Clooney faz é menos eficaz e mais reprodutora de estilos que exaltam as músicas como uma mediação estilística prosaica. Um bom exemplo disso, são as transições narrativas, normalmente marcadas pela fixação das canções, das viagens amparadas pela tradição musical, como em diversas outras obras, entre as mais recentes: “Brooklyn – Sem Pai Nem Mãe” (2019), de Edward Norton e “Green Book: O Guia” (2018), de Peter Farrelly. Tal cartilha, oferecida como uma fórmula pragmática de representar uma época e reforçar a multifacetação cultura norte-americana, está tão desgastada que a sensação é que tudo se distancia da contemporaneidade, não apenas no tempo narrativo, mas no próprio filme.

Por consequência, as cenas vão se arrastando para suas obviedades dramáticas, sempre procurando uma moral que seja capaz de findar um arco de forma útil, como se servisse ao interesse de uma dinâmica que mira a superação mais que seu próprio desenvolvimento. Do mesmo modo que tais recortes não funcionam na progressão, nem de maneira isolada, a direção de Clooney permanece em uma zona de conforto, mirando os planos como uma síntese desses recortes narrativos, em uma prosa da primeira metade do século passado. Porém, “Bar Doce Lar” apenas replica a apática linguagem que o diretor promove nos últimos anos, uma banalidade sem rosto, sem identificação. A sensação é de estarmos experienciando a automação dessa moral fragilizada, anacrônica, de uma proposta que poderia encontrar um caminho há quase um século atrás. Talvez na literatura a coisa pudesse funcionar melhor.

Se a inocuidade é um dos maiores problemas da obra, o ritmo não se distancia dessa dissolução de uma identidade particular e acaba deixando aos atores, a responsabilidade de sustentar algum interesse nas relações entre os personagens. A interpretação de Sheridan possui algum mérito nesse trânsito de amadurecimento, mas seu personagem é excessivamente carregado de arquétipos mal trabalhados, tornando-o mera projeção do consenso, Christopher Lloyd se esforça para dar alguma vida nesse marasmo sem fim, falhando no limite do roteiro. Já Ben Affleck não entrega algo muito distinto do que já conhecemos do ator, com pouca expressividade, mesmo que com momentos isolados funcionais, especialmente na primeira metade.

“Bar Doce Lar” reforça a impressão que Clooney desaprendeu a instigar, ou provocar, algo em seu espectador. Em “Boa noite e boa sorte” (2005), existia alguma paixão em representar um gênero que insinuava da mesma maneira que não frustrava. Nos últimos anos sua direção se tornou robótica, sem vida, sem expressão e apenas reprodutora, mirando as cifras sem nenhuma paixão aparente. O último sentimento que fica de seu novo projeto é uma exponencial indiferença com tudo que é projetado. Até mesmo Martin Ruhe, que contava com alguma qualidade isolada, vai se desbotando nessa decadência.

2 Nota do Crítico 5 1

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