Brooklyn – Sem Pai Nem Mãe

Um noir fofucho

Por Felipe Novoa

Edward Norton, em sua estreia como diretor/redator/ator, vem com uma história intrigante sobre planejamento urbano, racismo, assassinatos e joguetes políticos. A narrativa vem organizada numa longa introdução relativamente desconexa onde diversos personagens e arcos são apresentados e vão se fundindo e confundindo até o fim criando um maelstrom na tua cabeça que invariavelmente vai te fascinar.

“Brooklyn – Sem Pai Nem Mãe” é um filme longo para os padrões atuais mas que consegue prender sua atenção apesar de um roteiro meio cansativo. A história é curiosa, seguindo uma investigação da parte do detetive Lionel Essrog (Edward Norton) que é portador de Síndrome de Tourette, sendo incapaz de controlar alguns espasmos, tiques e obsessões ele tenta seguir as pistas por trás do homicídio de seu falecido chefe, Frank Minna (Bruce Willis). Nesse caminho ele esbarra com ativistas pela permanência de comunidades negras que estão sendo derrubadas para a criação de grandes projetos urbanos, finge ser jornalista e se aproxima da ativista Laura Rose (Gugu Mbatha-Raw). Lionel se enrosca com uma verdadeira máfia chefiada por Moses Randolph (Alec Baldwin, que está genial no papel de líder político das obras públicas e visionário do urbanismo) que tem como irmão Paul (Willem Dafoe), um engenheiro brilhante porém fracassado que vive às margens do sucesso do irmão como um receptáculo de arrependimento e culpa. A história avança para um final curioso e genuinamente surpreendente que te deixa meio warm and fuzzy por dentro.

Depois de anos tentando super analisar os filmes e tentar prever os finais enquanto os assistia eu me cansei disso, simplesmente tira toda a graça de ver o filme. O objetivo é apreciar a arte enquanto ela me é apresentada e depois tentar encontrar algum significado por trás se ele lá existir. Tentar fazer ambos ao mesmo tempo atrapalha o meu julgamento e não me permite prestar atenção em tudo que é feito e dito. “Brooklyn – Sem Pai Nem Mãe” é um ótimo exemplo de um filme pra se assistir inteiro sem pausas (primeiro devido a sua densidade, segundo por ser bom e valer sua atenção exclusiva) e com cuidado, pois ele exala estilo, cuidado, diálogos hora hilários hora reflexivos e isso tudo gera uma obra coesa e bem executada.

Existem tantas frentes emocionais que “Brooklyn – Sem Pai Nem Mãe” aborda que é até difícil escolher de qual vou escrever primeiro, mas permita que eu me concentre nelas de forma cronológica, vamos de órfãos que parece ser a força motriz do filme. Em cada personagem falta alguém na sua vida, e isso é manifestado nitidamente nas suas vidas. À Lionel e seus parceiros detetives faltou a família, sendo todos provenientes de um orfanato e unidos numa amizade que já duram anos; Laura não tinha a mãe; Moses não tinha ninguém; as minorias perdiam suas casas, se tornando órfãos de suas histórias e vizinhanças. Junto de todas essas ausências vem as expulsões e impermanências provenientes da personas que Lionel se apossa, ele sempre é ele mas cada personagem secundária vê ele como um alguém diferente. Lionel por mais entocado que esteja sempre se desculpa por seus ataques e crises, mostrando sua natureza irreprimível e indomável a flor da pele porém naturalmente bondosa e educada apesar dos muitos problemas. Ele por mais caótico que seja é um oásis relaxado no meio de um mundo tão complexo e doloroso

A trilha sonora é uma obra de respeito a parte. Composta com base no trabalho de Miles Davis, é de um jazz puro e acalentador porém enérgico nos momento certos. Quando o clímax se aproxima a música assume um aspecto mais voltado para o free jazz o que combina muito bem com o ar ansioso e caótico das últimas cenas. A faixa principal ‘Daily Battles’ é profundamente melancólica, sendo composta por Thom Yorke da banda inglesa Radiohead e tendo os metais e baixo performados pelo Flea.

A construção de mundo num filme de época tem de ser feita com carinho e cuidado já que o menor errinho te joga nas garras dos críticos mais familiarizados e atentos. Não posso comentar isso por não ser a minha área de estudo mas posso garantir que a Nova York dos anos 50 em “Brooklyn  – Sem Pai Nem Mãe” é magnificamente construída, repleta de detalhes desde caixas de fósforo até os vagões de metrô parecerem realmente antigos.

Um pequeno detalhe muito interessante são as duas personagens baseadas em pessoas reais. A que eu não conhecia é o próprio Moses Randolph, que foi baseado no planejador municipal Robert Moses, visto como responsável pela saída do time de baseball Dodgers da cidade (detalhe citado por alto em alguns jornais em conversas durante o filme). A outra personagem seria Gabby Horowitz (Cherry Jones) aparentemente baseada da ativista e jornalista Jane Jacobs, que lutou ferozmente nas mesmas batalhas que Gabby, porém na Nova York real.

Finalizando, nada mais tenho a dizer quanto a essa aposta para o Oscar, veja mas vá preparado para as 2:23 de filme; um peso grande demais associado a história humanista abstrata mas que merece a nossa atenção. Esse reboot na carreira de diretor de Norton é um dos filmes mais frescos que  vi nos últimos anos e com certeza vai receber atenção da mídia.

 

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