Crítica: Green Book – O Guia

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Uma jornada road-trip para se libertar das amarras condicionadas

Por Fabricio Duque


Já dizia o filósofo francês Jean-Paul Sartre em um de seus aforismos que “o inferno são os outros”. Sim, talvez essa seja a maior verdade da Humanidade, e quem sabe uma de suas maiores sadismos: juntar tantas diferenças e possibilidades existenciais e fazer com todos esses indivíduos idiossincráticos tenham que conviver pacificamente (e sem a espera de conflitos) em sociedade, esta que nada mais é um retrato de todos os seres em plurais identidades individuais.

Pois é, algo daria errado. Fato inquestionável. Uma dessas violentas hostilidades cai sobre a vida dos negros, que o único “pecado” visível é a cor de suas peles, fazendo com que sejam discriminados e rejeitados por não representar a supremacia branca. Mas nós já nos questionamos se o Universo, em sua plenitude, compactuada pela hipocrisia da religião, tivesse invertido os papéis. Os brancos então seriam “culpados” pela “clareza”.

É com essa premissa que o novo filme, baseado em uma história real, de Peter Farrely (de “O Amor é Cego”, “Quem Vai Ficar com Mary”, “Eu, Eu Mesmo e Irene”, “Debi & Lóide 2”) quer conduzir seus espectadores. “Green Book – O Guia” é uma jornada de transformação. Um road-movie de confronto. De mergulhar nas entranhas preconceituosas de pessoas altivas socialmente, sem tolerância e com o “rei na barriga” por serem “presenteadas” com a aparência da “brancura”.

Tudo acontece no início dos anos 1960, em uma New York, na metade do caminho de se politizar, que “aceita” os negros e os imigrantes italianos. o filme mexe em uma das maiores feridas da América, que durante décadas criou o Apartheid, segregando e dividindo pessoas pela cor. E você, caro leitor, acha que está tudo resolvido? Pelo contrário, ainda que com todo o empoderamento, o mesmo sofrimento retorna, porque pela teoria de Schopenhauer, a vida é um pêndulo.

O filme, protagonizado pelo ator Mahershala Ali (de “Moonlight: Sob a Luz do Luar”), co-protagonizado por Viggo Mortensen, produzido por Octavia Spender (de “Histórias Cruzadas”) e com a força da Dreamworks de Steven Spielberg e da Amazon Studios, foi indicado na categoria de Melhor Comédia. Sério? Comédia? Pelos alívios cômicos? Então “Pantera Negra” também precisa deixar de ser drama, por exemplo.

1962. Tony Lip (Viggo Mortensen, irretocável no papel – dê um Oscar sem pestanejar!), um dos maiores fanfarrões de Nova York, precisa de trabalho após sua discoteca, o Copacabana, fechar as portas. Ele conhece um pianista Don Shirley, homem rico e refinado, e quer que Lip faça uma turnê com ele. Enquanto os dois se chocam no início, um vínculo finalmente cresce à medida que eles viajam. Se um quer aumentar o conhecimento do mundo, buscando viver na própria pele os preconceitos. O outro aceita o trabalho por dinheiro, em que qualquer um dólar ajuda a sobreviver dia após dia.

“Green Book – O Guia” busca o título homônimo do livro do jornalista Victor Hugo Green, que criou o “Livro Verde The Negro Motorist Green Book”, um guia anual para os viajantes afro-americanos dentro dos Estados Unidos, com a lista de hotéis, bares, restaurantes. O objetivo era “proteger” os negros da crueldade dos brancos. Mas aqui o filme critica o próprio livro ao estimular a liberdade absoluta do ir e vir.

Não há como negar. O espectador referencia imediatamente a “Conduzindo Miss Daisy”, de Bruce Beresford, ainda que pela inversão de papéis raciais. Há um que também de “Sem Destino”, de Dennis Hopper; “On The Road”, de Walter Salles; e “Na Natureza Selvagem”, de Sean Penn. Todos esses por confrontar a primitiva individualidade dos seres-humanos que cada vez se parecem mais com animais instintivos.

O longa-metragem é uma jornada de aceitar as diferenças. De entender que todos os indivíduos são iguais e que precisam ser respeitados. É uma obra que abraça as ideias de “A Felicidade Não Se Compra”, de Frank Capra. Nós somos convidados a participar desta necropsia. De se desnudar as hipocrisias. De expor as intolerâncias. Nenhum deles, tampouco o público, sai do mesmo jeito que entrou. Há uma transmutação comportamental à moda de “Intocáveis”, filme francês de Olivier Nakache e Éric Toledano, também em papéis invertidos.

“Green Book – O Guia”, ainda que seja concebido e arquitetado para ser um filme ao Oscar, desencava camadas filosófico-políticas. E já se firma como um favorito à estatueta pelada, visto que venceu prêmio dos produtores (PGA) como Melhor Filme, três Globos de Ouro, apesar de sua polêmica em um um tuíte contra os muçulmanos pelo roteirista Nick Vallelonga em 2015. E até mesmo o hábito do diretor de mostrar seu “documento genital” como “brincadeira” em 1998. Viu? A História nunca é esquecida e sempre vem ã tona. Concluindo, o longa-metragem consegue mesclar sensibilidade e humor; drama e técnica. Um filme de ator. De atores. Em uma aprisionada e ao mesmo tempo liberta direção, redenção e aceitação. De todos sobre todos.

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