Balanço Geral do Festival CineOP 2024

Balanço Geral do Festival CineOP 2024

Saiba tudo o que aconteceu na 19a edição da mostra de cinema de Ouro Preto, de 19 a 24 de junho

Por Vitor Velloso

A 19a Mostra de Cinema de Ouro Preto, o CineOP, chegou ao fim com mais de 18 mil pessoas foram beneficiadas pela programação presencial da Mostra nesta edição e a programação online teve mais de 100 mil acessos com origem em 64 países diferentes”, segundo texto oficial do festival. Com programação gratuita, debates presenciais sobre preservação, educação, Video on Demand, Inteligência Artificial, entre outras mesas temáticas, refletiram sobre o cinema brasileiro em seis dias de atividades intensas no Mostra.

Na programação, foram exibidos 153 filmes em pré-estreias e mostras temáticas – (15 longas, 1 média e 122 curtas-metragens), vindos de 7 países (Brasil, Angola, Argentina, Benin Colômbia, França e Portugal) e de 18 estados brasileiros (AC, BA, CE, DF, ES, GO, MA, MG, MS, PA, PB, PE, PI, PR, RJ, RS, SC, SP) distribuídos em oito mostras: Contemporânea, Homenagem, Preservação, Histórica, Educação, Mostrinha, Cine-Escola, Contemporânea e exibidos na TV UFOP, nas plataformas da CineOP e do Instituto Cultural Play. Foram 32 sessões de cinema com exibições de filmes para todas as idades em dois cinemas instalados especialmente para o evento: o Cine-Praça, ao ar livre, na Praça Tiradentes (plateia de 500 lugares); e o Cine-Teatro, no Centro de Convenções (plateia de 510 lugares)” 

A 19a CineOP tornou a debater a necessidade de descentralizar a preservação no Brasil, para que se possa criar redes de preservação e facilitar a pesquisa nos arquivos presentes no país. A Mostra Histórica contou com cinco longas-metragens “Bizarros Peixes das Fossas Abissais” (2023), com direção de Marão; “Luz, Anima, Ação” (2013), direção de Eduardo Calvet; “Garoto Cósmico” (2007), “O Menino e o Mundo” (2013) e “Perlimps” (2023), todos os três com direção de Alê Abreu. 

Os curadores da CineOP 2024, Cleber Eduardo e Fábio Yamaji, escrevem: “São 45 títulos do cinema brasileiro de animação autoral, no total de obras programadas para sessões presenciais e online no segmento da Temática Histórica da CineOP em 2024, que abrangem um arco histórico de 1929 a 2023. Trinta e cinco filmes serão exibidos em sessões presenciais. Dez em exibições online. A maior parte da programação é de curtas-metragens (42 títulos). Apenas três longas-metragens completam o conjunto de atrações. Se a soma das criações animadas é apenas um pequeno recorte, entre outros possíveis, o conjunto permite vislumbrar a inventiva diversivade da produção no país, com técnicos, estilos, universos, tonalidades e personagens muito distintos, talvez com uma ênfase no humor em alguns e nas variações da melancolia em outros, nem todos direcionados para o público infantil (a maioria, na verdade, não é)… Os anos 90 viveram os primeiros efeitos mais evidentes da modernização da animação a partir de meados dos anos 80, após o curso no CTAv com equipamentos e técnicos do National Film Board, do Canadá, que é considerado um marco de estímulo, formação e modernização da animação brasileira. Nos anos 90, se destacam algumas autorias importantes, como Marão, Ennio Torresan, Otto Guerra, Alê Abreu, Helena Lustosa, Allan Sieber, Tanya Anaya, ainda presentes na atividade da animação contemporânea. Também é a década de surgimento do Anima Mundi, que mudou o panorama da produção no Brasil. No período entre 2010 e 2020, há outro cenário e contexto, com mais incentivo financeiro e mais telas para exibir, uma nova geração de animação e outras tecnologias (digitais)”.

No catálogo oferecido pela Universo Produção para a Imprensa há uma série de esforços para se desenvolver a Mostra Histórica através de diversas perspectivas, desde uma perspectiva histórica do cinema de animação no Brasil até desafios na regulamentação das plataformas de streaming. “O Brasil quer se ver em todas as telas, com conteúdo produzido no Brasil e por brasileiros. Queremos um Brasil soberano, com uma indústria audiovisual igualmente soberana. Enquanto aguardamos a aprovação da Lei Toni Venturi, que visa regular a atuação das plataformas de streaming no Brasil, favorecendo um ciclo duradouro de crescimento e sustentabilidade da produção nacional, apresentamos uma lista de filmes históricos para ver e/ou rever. O Brasil busca não perder o trem bala da história e implementar a regulação do streaming, como já foi feito na União Europeia, Alemanha, Inglaterra, França, Coreia do Sul e Canadá”, comenta o animador Arnaldo Galvão.

O texto de Rafael de Luna Freire, intitulado “O Cinema Silencioso de Animação no Brasil e a Historiografia: Reflexões a partir de O Kaiser”, discute um “divórcio” entre a história do cinema brasileiro e da animação brasileira, afirmando que “O cinema de animação deve voltar a ser verdadeiramente incluído nas pesquisas históricas sobre o cinema silencioso no Brasil, e os estudiosos da animação brasileira voltarem a dialogar com os avanços e métodos que garantiram a enorme ampliação do conhecimento, nas últimas décadas, sobre a cultura cinematográfica no Brasil no início do século XX”. 

Já o texto de Hernani Heffner, intitulado “Traço de Criança”, debate o cinema de Alê Abreu: 

“Se em seus primeiros filmes prevalece a composição que privilegia animação impecável, a passagem ao longa-metragem trará a definição cabal da adesão à estrutura narrativa mencionada acima, com Garoto Cósmico e O Menino e o Mundo, com o corolário deste último exibir o traço infantil como forma de composição criativa da imagem(as formas “adultas”, como a colagem, o digital ou o “ao vivo” surgirão, inclusive, como contraponto e signos da violência do mundo). Nesse sentido, seu cinema é menos uma repetição de antigas estruturas, com as quais, em verdade, dialoga, do que o reexame de uma situação que perdura à luz dos olhos de uma nova geração. Não é também um cinema caudatário da chamada Retomada, marcada por filmes que se aproximam do universo mencionado aqui, como Central do Brasil, de Walter Salles, mas em outra chave. Em O Menino e o Mundo, por exemplo, a cidade não é um espaço absoluta e metaforicamente infernal. Ou ainda, sua narrativa não se mostra como um percurso de redenção. Ao contrário de uma certa euforia, advinda do Contexto do Plano Real, e da primeira era Lula, perceptível em parte do cinema brasileiro daquele momento, o filme de Abreu mostra-singularmente mais analítico do quadro maior, e necessariamente pessimista quanto a uma transformação do capitalismo brasileiroum processo menos destrutivo, ou ao contrário, mais humano, igualitário e comunitário.”

Alê Oliveira, um dos homenageados, frequentemente citados nos textos, não pode estar presente no CineOP, mas suas obras foram exibidas na vasta programação da Mostra. 

Além disso, o texto de Sávio Leite procurou debater a presença da animação no cinema de Minas Gerais, em seu texto intitulado “Minas Animada”, levantando um panorama histórico sobre essa presença. Patrícia Lindoso escreveu o texto “Mulher que Movem a Animação Brasileira”, levantando o nome das mulheres que ajudaram a construir a história da animação no Brasil e listando as mulheres que participaram nas diretorias responsáveis da Associação Brasileira de Cinema de Animação. O texto de Jennifer Jane Serra, com o título “Animação Documentária: Quando a realidade escapa à lente da câmera” e o texto de Fábio Yamaji, “Formação em Animação no Brasil”, encerraram os textos da Mostra Histórica presentes no catálogo da 19a CineOP. 

Sobre a Mostra Preservação, os curadores José Quental e Vivian Malusá escreveram:  “Falar sobre patrimônio é, como sabemos, uma ação do presente voltada para o passado. É no hoje, no momento presente, que reafirmamos, reformulamos e redefinimos o que é ou não patrimônio, indicando caminhos para os objetos, bens, documentos e tradições que desejamos que sejam preservados e valorizados e que no futuro sigam sendo compreendidos enquanto parte do patrimônio cultural. Ou seja, construímos no presente (não sem luta ou disputa) nossos pontos de ligação com aqueles que nos precederam, com as culturas e sociedades do passado. Nesse sentido, observar ao nosso redor, estar atento ao que está acontecendo no mundo é uma ação fundamental para compreendermos os futuros possíveis do patrimônio audiovisual. Evidentemente, escolhas e recortes são feitos nesse processo de abordagem do tempo presente. Com que chave buscamos olhar o passado? Quais recortes, temas ou aspectos devemos nos debruçar e privilegiar? Que elementos e discussões do mundo contemporâneo têm nos instigado e revelado desafios, aspirações e problemas? Qual será o patrimônio audiovisual que vamos legar para as futuras gerações (e em quais condições)?” 

Essas perguntas foram retomadas nos debates da 19a CineOP, que abordaram de maneira mais aprofundada questões particulares e se atrelando diretamente aos problemas e desafios contemporâneos, tanto da sociedade de maneira geral quanto da preservação audiovisual. 

No texto de Laura Bezerra, “Preservação Audiovisual no Brasil do Séc.XXI: O presente tá on. E o Futuro?”, fala-se sobre algumas tecnologias emergentes no campo da preservação. O texto-performance de Almir Almas e ChatGPT 4.0, com o título de “Inteligência Artificial e o futuro da preservação audiovisual: questões contemporâneas”, aborda o ChatGPT 4.0 para debater a utilização da inteligência artificial para a preservação audiovisual. Já o texto de Paulo Barcellos, “Inteligência Artificial e o futuro da preservação audiovisual: questões técnicas e éticas”, estrutura alguns desafios técnicos e éticos para a utilização da I.A na preservação audiovisual. 

“Temos uma incrível oportunidade, com o surgimento dessa nova tecnologia, de dar um enorme salto na preservação do audiovisual brasileiro. Há questões éticas importantes, e os humanos são e continuarão sendo peças-chave nessa equação, mas a restauração é um dos casos mais interessantes do uso de IA. É uma área com pouco investimento e mão de obra cada vez mais rara. A IA poderá contribuir significativamente, aumentando massivamente a capacidade de restauração sem causar impactos no emprego, já que há falta de profissionais”, disse Paulo Barcellos, que também protagonizou a polêmica em torno de sua fala sobre a restauração de “Cidade de Deus”, com modificações na obra. 

O texto de Cadu Marconi, “Entre Fitas e Rolos: Apontamentos sobre a digitalização audiovisual e sonora no Arquivo Nacional”, e o texto de Gabriela Dantas e David Felício, intitulado “Processos de Digitalização para a salvaguarda da memória audiovisual cearense a partir do MIS-CE”, debateram não apenas a digitalização audiovisual, mas também um caráter regional, descentralizado e de preservação cultural a partir de uma perspectiva local. 

No catálogo também estão presentes os textos: “Fórum de Museus da Imagem e do Som: MIS em rede revelado na 18a CineOP”, de Mirele Camargo, “Breve Histórico da RUAAV – Rede Universitária de Acervos Audiovisuais”, de Rafael de Luna e Reinaldo Cardenuto e “Sobre a Descoberta dos caminhos da preservação audiovisual no Brasil”, de Amanda Lima.

Como grande destaque na Mostra Preservação, tivemos a exibição do filme “O Hussardo da Morte” (1925), Chile, com 65 minutos, de Pedro Sienna, uma obra que “Em 13 de julho de 1998, e pelo Decreto 742 do Ministério da Educação, o filme foi declarado Monumento Histórico “(…) pelo seu tema atraente e execução impecável, o filme teve um grande sucesso durante a sua estreia, que foi reeditado na sua reedição em 1941, tornando-se o filme mais importante da nossa história cinematográfica (…)”. É o primeiro e único filme chileno a receber este reconhecimento”.

Leia também:

CARTA DE OURO PRETO 2024 | ENCONTRO NACIONAL DE ARQUIVOS E ACERVOS AUDIOVISUAIS BRASILEIROS

https://cineop.com.br/n/carta-de-ouro-preto-2024-encontro-nacional-de-arquivos-e-acervos-audiovisuais-brasileiros/

CARTA DE OURO PRETO | ENCONTRO DA EDUCAÇÃO: XVI FÓRUM DA REDE KINO

https://cineop.com.br/n/carta-de-ouro-preto-encontro-da-educacao-xvi-forum-da-rede-kino/

A Mostra Educação contou com debates sobre a elaboração de uma proposta de Plano Nacional de Cinema na Escola, com o GT de Formação Docente, com o texto “Cinema para Escapar das Telas e Permanecer nas Telas”, escrito por Wanceslao Machado de Oliveira Junior, o GT Condições de Produção e Exibição, com o texto “Condições de (Im)Possibilidade do Cinema na Escola”, escrito por Isaac Pipano, o GT Acervos e Curadorias, com o texto “Curar as Imagens para e com as escolas”, escrito por Adriana Fresquet, Gustavo Jardim e Débora Nakache, o GT Pedagogias, com o texto “Pistas para pedagogias imperfeitas com o cinema brasileiro na escola”, escrito por Fernanda Omelczuk e Clarissa Nanchery. 

A 19a CineOP foi mais um encontro de grande aprendizado nas rodas de debate e belíssimas exibições no Cine-Praça, como o filme “Othelo, O Grande”, de Lucas H. Rossi e uma série de curtas-metragens da Mostra Histórica. E na Mostra Contemporânea, a exibição de “Peréio, Eu Te Odeio!”, de Allan Sieber e Tasso Dourado, que divertiu o público com as histórias caóticas de uma das lendas do cinema brasileiro.

Com um clima mais ameno que a CineOP passada, a edição de 2024 contou com uma mudança na estrutura de programação: o fim da sessão de 22h na Praça. Uma escolha acertada da Universo Produções, já que normalmente o pesado frio espantava um número relevante de espectadores ao longo da sessão. Nossa cobertura presencial da CineOP chegou ao fim, mas algumas obras permanecem disponíveis de maneira remota, confira no link: https://cineop.com.br/filmes/assista-online/. 

 

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