Mostra Um Curta Por Diq mes 13

Othelo, o Grande

Um ideal possível

Por Vitor Velloso

Festival do Rio 2023; Durante a Mostra CineOP 2024

Othelo, o Grande

Funcionando como um bom sintetizador dos diferentes vetores que são possíveis no referencial, e reverencial, de um artista tão múltiplo e complexo como Grande Othelo, o filme de Lucas H. Rossi, “Othelo, O Grande”, cumpre uma função didática particularmente importante em um cenário de constante apagamento memorial no Brasil recente.

Um dos grandes méritos da produção é não procurar uma cronologia que ofereça ao espectador um apoio cronológico engessado, permitindo-se transitar entre fases e depoimentos do ator, como uma condensação da capacidade do artista em fazer rir e chorar, com uma maestria ímpar na história do cinema mundial. Nesse resgato histórico, o perfil de Othelo projetado na Praça Tiradentes na cidade histórica de Ouro Preto, não se limitou a falar da importância artística de Sebastião, mas apresentou o esforço do ator na luta contra o racismo no Brasil e seu posicionamento diante das inúmeras discriminações sofridas ao longo da vida e carreira. Lucas H. Rossi e Willem Dias, que assinam a montagem do longa, são hábeis em demonstrar a potência do protagonista em sua posição política, tanto na grande tela, quanto em falas pessoais. Nesse sentido, a retomada de entrevistas clássicas, como a participação no Roda Viva, ganham um deslocamento com a força discursiva dos contextos construídos através da montagem. Mas se esta estrutura de síntese que é um dos grandes méritos de uma obra que reconhece a impossibilidade de abarcar uma carreira que se confunde intrinsecamente com a história do cinema brasileiro, acaba deixando algumas temáticas levantadas pelo ator escaparem com uma superficialidade que empobrece algumas sequências do projeto.

Talvez “Othelo, O Grande” pretendesse com algumas dessas interrupções discursivas, criar um impacto imediato no espectador, porém apesar do inegável efeito, deixa o documentário um pouco mais disperso, enfrentando algumas dificuldades de abordar esses depoimentos como uma construção do próprio filme. É possível imaginar que a fala de Othelo possua um fim em si, e não precise de uma continuidade, e por mais que isso seja possível em alguns momentos, reflete uma fragilidade na abordagem dessas temáticas enquanto recurso didático, proposto na própria capacidade sintética do filme. Assim, o longa não consegue manter um fluxo ininterrupto desses fragmentos argumentativos. 

Ainda assim, os méritos do documentário não podem ser reduzidos por essas particularidades mais frágeis, pois a articulação entre carreira, luta anti racista e posicionamento pessoal e político diante dos problemas sociais brasileiros, são temáticas de uma complexidade tão impossível de abordar em 80 minutos de projeção, que superficialidades pontuais são compreensíveis. Além disso, o filme possui uma capacidade memorável de compilar alguns dos melhores momentos como relembrar o desejo de Welles em trabalhar com Othelo, Herzog tendo de ceder e, claro, Klaus Kinski “atrapalhando” a cena de Othelo. Nesses momentos, “Othelo, O Grande” consegue encantar o público com as cópias de “Fitzcarraldo” (1982) e “Macunaíma” (1969) em alta definição, utilizando recortes que são capazes de traduzir o espírito de Othelo com uma simplicidade objetiva, que a montagem organiza de maneira eficiente. Talvez os contrastes entre essa capacidade de aglutinar momentos com efetividade e os deslizes mais superficiais em outros, que acabe causando alguma frustração no espectador, que procura uma constância neste projeto de duração tão breve, ainda que marcante.

Mesmo que não seja uma obra tão sólida quanto poderia, já que escolhe um recorte um pouco mais frágil em uma quantidade de material de arquivo que somava 300h, o resultado final é tocante e tem uma força inegável, capaz de emocionar o público e garantir que Grande Othelo é um dos maiores atores da história do cinema mundial. E “Othelo, O Grande” consegue concluir isso com uma bela transição para a clássica cena em que ele e Angela cantam em “Rio Zona Norte” (1957).

Se o público presente na sessão do Cine-Praça não se emocionou com a projeção em Ouro Preto, talvez devesse ter escutado as palavras do diretor durante o bate-papo, que disse acreditar que sua avó ficaria feliz de vê-lo debater cinema. 

3 Nota do Crítico 5 1

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