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A Teoria dos Vidros Quebrados

A teoria dos filmes derivados

Por Pedro Mesquita

A Teoria dos Vidros Quebrados

É praticamente inevitável que, após mais de um século de história do cinema, boa parte da produção contemporânea de filmes encontre sua razão de ser na releitura de padrões há muito estabelecidos. Não precisamos, é claro, considerar a priori isso como sinal de decadência ou falta de inventividade por parte dos realizadores atuais; ou não seria o maior diretor atualmente vivo — Clint Eastwood — aquele que dedicou grande parte de sua carreira a revisar os tropos do western?

Existem também os maus exemplos. “A Teoria dos Vidros Quebrados”, co-produção uruguaia, argentina e brasileira dirigida por Diego Fernández Pujol, é um deles. Parece apropriado ter convocado o western neste início de discussão, pois o filme apresenta, apesar da sua roupagem contemporânea, a estrutura narrativa clássica de um faroeste. Claudio Tapia (Martín Slipak), perito de uma seguradora de carros, é designado por esta a ser o seu novo representante numa cidadezinha local (a “região 15”). Os chefes lhe dão a notícia com alguma cautela; esta não parece ser uma missão fácil. Tapia, entretanto, a aceita e parte numa viagem.

É aqui que vemos encenado um tema característico do gênero: a chegada do herói solitário numa cidade estranha. Aqui, porém, ela não acontece a cavalo, muito menos por vias férreas. Estamos na América Latina, afinal; portanto, a viagem se faz de ônibus… e ornada com uma trilha musical que, usando e abusando das melodias assoviadas, nos lembra o trabalho do mais distinto e condecorado compositor para westerns, Ennio Morricone — o que adiciona uma camada extra de ironia à situação.

Percebe-se, portanto, que “A Teoria dos Vidros Quebrados” é um filme cômico, que toma dos filmes de faroeste e dos filmes de detetive algumas situações-chave e as recria com alguma descontração. O problema que Tapia precisa enfrentar ao chegar no seu destino atesta isso muito bem: eclode na cidadezinha um escândalo de queima de carros e, em meio ao difícil dilema de pagar os habitantes (que, a princípio, parecem estar querendo colher os frutos de um golpe) ou tentar poupar o máximo de dinheiro da seguradora, Tapia deve fazer uma escolha, que parece fadada a lhe prejudicar, não importando o caminho escolhido. Ele parece encurralado, mas, eventualmente, com a ajuda de um mentor — a personagem de Servetto —, o nosso herói ganha a devida claridade mental para desvendar o autor dos crimes e, num final típico dos filmes de tipo “whodunit”, desmascara os culpados.

“A Teoria dos Vidros Quebrados” é um filme cômico, sim; mas um filme pouquíssimo bem sucedido neste objetivo que coloca a si mesmo, porque, por mais que consigamos entrever a intenção cômica presente no texto, esta não se atualiza nas imagens. O filme é conduzido tão protocolarmente — o trabalho de mise en scène de Diego Fernández Pujol não confere um ritmo cativante aos diálogos que tanto pedem por ele; tampouco trabalha a fotografia de maneira particularmente pungente — que a sensação de um potencial pouco aproveitado é inevitável. Não existe aquele exagero maneirista de diretores como os irmãos Coen (conhecidos, aliás, por suas releituras dos mais diversos gêneros da Hollywood clássica) muito menos o comedimento e a rigidez de diretores como Jim Jarmusch ou Wes Anderson. Aqui, tudo é excessivamente regular, plano, monótono: daí a impossibilidade sequer de atribuirmos a “A Teoria dos Vidros Quebrados” o álibi da “mise en scène clássica”.

A única coisa que podemos destacar como verdadeiramente distinta aqui são os momentos em que o humor do filme pende para o lowbrow. Abundam, por exemplo, as cenas em que o perito Tapia sonha com outras personagens caçoando de si, rindo e lhe acusando de incompetência, e esses sonhos são animados com efeitos visuais obviamente artificiais, assumidamente caretas; outro exemplo são as eventuais cenas musicais, que até poderiam adicionar ao filme alguma vivacidade caso o conteúdo das letras não fosse tão bobo.

Esta última palavra, de caráter totalmente subjetivo, esfacela a impressão de objetividade que o crítico procurou simular até aqui. Em verdade — é preciso dizê-lo —, o juízo estético não pode pretender ser objetivo, porque os gostos variam entre os homens. E é dessa maneira que justificamos a impressão tão negativa acerca de “A Teoria dos Vidros Quebrados” deixada por este texto: além de um filme pouquíssimo interessado num trabalho minimamente instigante com a sua forma, o seu humor frequentemente juvenil não apelou de forma alguma à sensibilidade de quem vos escreve.

1 Nota do Crítico 5 1

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