Artigo-Ensaio: Precisamos Falar Sobre Clint Eastwood

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Precisamos falar sobre Clint Eastwood

Por Vitor Velloso


O que falar sobre Clint Eastwood que já não tenha sido falado? De homem implacável do velho oeste à mula de carga do cartel mexicano. Redenção? Sua carreira seria uma reflexão sobre uma América decadente que ele cresceu mas mantém seus afetos? Bom, não diria isso.

Acontece que Clint Eastwood já provou seu talento como autor e diretor, depois de uma certa idade um grupo de fãs e críticos passaram a apontar um determinismo crítico quanto a visão americana clássica, ou até mesmo uma espécie de redenção biográfica, já que ele teria cruzado grande parte da história do século XX, tendo o século XIX como maior fantasma histórico e moralista possível. Curiosamente, Clint aparenta reconhecer diversos dogmas e preconceitos que possui, porém, se defende na história de seu país. Possui um ufanismo que beira a estupidez, realizando planos quase propagandistas.

Quem me conhece, sabe que apenas por estes motivos eu já teria desistido do autor. Porém, o mais curioso é… Clint me leva aos cinemas. Não por apreço a sua carreira, principalmente a recente, mas o cinema que ele faz, sem duvida, impacta Hollywood.

Começou sua carreira como diretor em 71, mas foi com “Estranho sem Nome” que conseguiu destaque. Aprendendo com Sergio Leone, Clint começa a montar sua autoria a partir do faroeste, buscando um desenvolvimento histórico com as Estados Unidos, ele desenha um visão própria do país e promove isso até os dias atuais. Com diversos acertos no meio do caminho, como: “Josey Wales”, “O cavaleiro solitário”, “Bird”, “Os Imperdoáveis”, “Pontes de Madison” etc. Foi angariando fãs ao redor do mundo e sempre entregando seus moralismos com seus trabalhos. A qualidade de seus filmes são inegáveis, com exceção de 2010 para cá, que irei comentar mais a frente. Sendo conhecido por construir uma misancene econômica mas capaz de criar uma dramatização sólida, chegamos a sua carreira contemporânea onde as coisas apertam um pouco.

Se antes o argumento de que ele nasceu na década de 30, fez sucesso com faroestes e tudo mais, era “válido”(nunca concordei com isso) para defender sua misoginia, racismo e xenofobia, hoje não é mais. E a mídia já começa a enxergar ele como um monstro completo. Ora, sejamos sinceros, ele ta longe de ser um santo, pelo contrário, “A mula” me incomodou profundamente com seu cinismo quanto sua postura etnocêntrica, mas por favor, igual a ele tem uma cassetada em Hollywood. A maioria das obras circuladas no coração colonialista tem um teor igual ou pior, e sempre passa despercebido.

Mas ainda que tenha feito o advogado do diabo, é necessário lembrar… ele é racista. E o por que da chatice de lembrar o tempo inteiro disso? Porque não importa o esforço que se faça em defender sua filmografia, lembrar que “Os imperdoáveis” é uma das melhores despedidas do velho mundo já filmadas, que “Pontes de Madison” é o melhor filme da sessão da tard… um dos maiores melodramas modernos, sempre empaco na questão política. A excessiva tentativa de colonizar as telas do mundo com o “louvor” da bandeira americana é decadente.

Para além de suas deficiências ideológicas, há um processo cinematográfico interessante de ser visto em tela. Há uma economia nos métodos do autor que simplifica os métodos narrativos das histórias que ele propõe contar. Não há pirotecnia de linguagem, nem uma atenção extra à questão do diretor, simplesmente uma história a ser contada e montada. O ritmo de Clint é ditado pelo estado natural das coisas em cena. Por isso seu melhor filme é “Pontes de Madison”.

O cineasta possui uma capacidade muito grande em montar o Drama. E essa questão da dramatização possui uma linha muito tênue, não à toa “Sully”, “Trem para Paris” e “Mula” não funcionam. Pois há uma necessidade de recorrer a um certo classicismo na narrativa a fim de proclamar estas histórias à tela, uma tentativa de mitificar as figuras do roteiro, que nestes três casos cai no lugar comum, por uma necessidade de transformar o texto em cânone a toda a ação do filme. Transformando não apenas seu discurso em uma projeção de exposição cênica, como fixando a decupagem em um jogo óbvio e menos desafiador que propõe. E se os seus personagens são levados a algum extremo, onde devem enfrentar as consequências de seus deveres e ações, a herança vem do faroeste, novamente. Essas revisões críticas do cinema ou da própria carreira acabam circulando o lugar comum que ele ajudou a criar e força o espectador a assistir uma dramatização didática e complacente com essa construção histórica defasada. Acontece que certa urgência narrativa que há nos filmes recentes de Clint, junto ao xadrez complexo da economia e simplicidade, compõe um estilo tão pouco intrigante que não recompensa quem assiste. Se antes havia referências claras ao que se filmava, Leone, Douglas Sirk, Hawks, Ford etc, mas de uma maneira mais dialética, agora, um didatismo pouco produtivo que se mantém num ciclo nostálgico enfraquecido pela própria ideologia.

E no fim, apesar de ainda gostar de diversos filmes, principalmente “Sobre Meninos e Lobos”, me sinto o John Wayne no fim de “Rastros de Ódio”, paro na porta do cinema e volto.

Ainda que eu não tenha desistido de ver seus projetos, saio cansado de todas as sessões, sempre o velho moralismo, racismo e tudo que citei acima. E com isso, cuidado com a fala. “A Mula” está errado.

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