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A Crônica Francesa

Estímulos estagnados

Por Ciro Araujo

Festival de Cannes 2021

A Crônica Francesa

Já virou um ritual sistemático o cinema de Wes Anderson. Em seu mais novo filme “A Crônica Francesa”, o diretor decide retomar a filmagem em live-action (com personagens reais) e se afasta de sua fase animadora com “Ilha de Cachorros”. A evolução do cineasta é amplamente observado através de sua estética peculiar e chupada de várias outras inspirações. Por consequência, trata-se também de uma estagnação do artista dentro de seu campo textual, uma vez que seu longa-metragem encontra-se em um longo corredor de extrapolações do diretor. 

A carreira de Wes Anderson é bem sistematizada. Em seu começo, ele procura encontrar sua estética junto com temas onde ele encontra a ironia rapidamente. A sua parceria com o ator Bill Murray, que em “A Crônica Francesa” interpreta o falecido editor-geral do jornal principal é sintoma disso. “Nada de chorar”, avisa o personagem. Muitos definem essa patologia do realizador estadounidense como um sentimento agridoce. De fato, se em pleno ano vigente de 2022 encontra-se a projeção da comédia dramática, já é passível ao termo. Observável claro essa enxurrada de personagens que a cultura norte-americana cria na base do puro sarcasmo através de depressão e um conjunto de outras emoções trágicas. Talvez seja muito ideal para uma geração que aproveita do uso de apologias ao suicídio como pura piada para se expressar. Um novo futuro romântico, talvez? De qualquer forma, através dessa industrialização de personagens enlatados há um padrão dentro do que podemos chamar de “Andersonalização”. São papéis estranhos, aquilo que chamam do inglês quirky. Peculiar, excêntrico. Em seu novo filme, há através da estrutura de revista, isto é, artigos e crônicas que definem uma antologia de histórias temáticas ao país francês.  

Assim, uma introdução de personagens que sempre se movem e se comportam em um mistura de Jacques Tati, Truffaut e Buster Keaton. O básico de Anderson. Claramente é observável portanto que não há como escapar da comparação de seus trabalhos prévios. Na realidade, é uma comunicação. Os diretores que surgiram através dessa Hollywood dos anos dois mil que distribui filmes de certa forma mais independentes (selo Searchlight da antiga Fox, Miramax e até A24), parecem se encontrar em uma culminação estilística. Quentin Tarantino, inclusive, em seu mais recente trabalho, encontrou um conforto nos anos setenta em “Era uma vez em… Hollywood”. Paul Thomas Anderson em “Trama Fantasma” traduz seu apreço pelo clássico na – suposta – atuação final do mítico Daniel Day-Lewis. Junto, Wes Anderson aproveita o orçamento agora quase ilimitado, o que era um obstáculo para todos seus outros longa-metragens, e incorpora em um departamento de arte simplesmente impecável. Tudo está nos moldes que ele deseja. É um regente de permanência, isto é, um diretor que detalha exatamente onde quer que cada objeto esteja. Talvez inclusive determine o quão deve ser um “porre” trabalhar com o dito cujo. 

Nos últimos anos vigentes a crítica que apareceu para o diretor é a respeito de sua visualização cultural do restante do globo. E de fato, em sua última animação, há o retrato extremamente estereotipado de asiáticos, um desentendimento completo a respeito de tradições e que inclusive perduram para a simples piada com pessoas da região. As piadas com japoneses – no caso, objeto do filme – já estão em uma certa decadência (claro, ainda não acabou), mas o que há de desvios para os vizinhos chineses não está registrado. Assim, cabe ao diretor essa responsabilidade. Em uma tacada mecânica, Wes Anderson traz seu elenco mais diverso, o que por tabela já torna-se uma grande ironia e inclusive um meta-comentário a respeito. A princípio, seu olhar já esquematizado dentro de seu próprio modelo torna sua própria capacidade o que o paralisa. Mesmo com novos roteiros, um centralismo idiossincrático, como se o cineasta possuísse um desejo para cada vez mais entrar na espiral estilística. Então, em “A Crônica Francesa”, há uma abstração de muitos conceitos, mesmo que permaneça seu sarcasmo habitual, tudo entorno do máximo de gags que ele o encontra. Uma oportunidade do mesmo aplicar um perfeccionismo, apesar de qualquer maneira não perfeita. O que pode ser descrito é como uma utopia do cinema do americano, uma visão de criatividade que não flui além da imagem ali. Alguns verão na cara escarrada cenários de Tati em “Meu Tio”, outros enxergarão uma oportunidade autoral de Anderson com grandes recursos. Seja o que for, esse cinema produzido é o super-estimulante e que entrega o que pode ser comparado a um chiclete: o sabor é bom, mas será que por mais tempo continuará tão saboroso quanto?

3 Nota do Crítico 5 1

Trailer

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