Era uma Vez Em… Hollywood

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O sangue de Tarantino

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Cannes 2019

Quentin Tarantino tornou-se um gênero cinematográfico por construir toda sua carreira com elementos narrativos que unem o clássico, moderno, Kitsch e trash ao mesmo tempo. E a cada obra, o diretor americano, desperta uma passional ansiedade.

Em seu mais recente filme “Era Uma Vez… Em Hollywood”, exibido pela primeira vez aqui no Festival de Cannes 2019, e em competição oficial, é corroborado suas características típicas de criar uma ambiência entre espera e ação, conversas e surrealismo possível e altamente realista.

Tarantino cria uma magia orgânica, física e de personificação do primitivo, que desencadeia a violência catártica de respostas imediatas.

“Era Uma Vez… Em Hollywood” é um filme de cenas, de instantes arranjados, de acasos cruéis e sadismos identificados. Em quase três horas de duração, o espectador não percebe o tempo, tudo por causa da maestria da direção que nos imerge no caos estético, fluido, livre, perspicaz, espirituoso e precisamente adestrado.

O roteiro quer desencanar a pressão do tema. Desmistificar para destruir, para consertar e depois para salvar acontecimentos que mudaram a história da humanidade.

Sim, esta crítica talvez seja a mais difícil, por ter que dar voltas nas palavras para que o spoiler não aconteça, tanto que o próprio diretor, humildemente fez um pedido a todos os jornalistas que não publiquem e comentem informações demais sobre o final. E sim, todo Tarantino é um acontecimento. Aqui, a menor fila durou uma hora de espera. Mas vamos às análises propriamente dita sobre o filme que excitou Cannes.

“Era Uma Vez… Em Hollywood”, como foi dito, Tarantino é um criador de cenas, de esquetes-núcleos, com suas conversas, hesitações e uma quebra da moralidade que não soa politicamente incorreta, ainda que transborde testosteronas. É também metalinguagem com humor passivo-agressivo-pavio-curto. Um filme dentro de um filme, subvertendo e estreitando os limites de realidade e ficção. O que é cada uma é um trabalho único e sagaz de seu próprio espectador.

Outro ponto a ser analisado é sobre a cinefilia aguçada de Tarantino, que pulula referências aos filmes clássicos e a diretores (Roman Polanski sendo lembrado por um “passante”), neste caso, os especiais de Spaghetti western, o famoso faroeste espaguete, que esta refilmou com o ator Leonardo DiCaprio (ator impecável que interpreta por detalhes e pela naturalização das reações – o choro por exemplo – os brutos também choram) e Brad Pitt. E muitas de seus anteriores, também. Tanto que a sessão de gala foi projetada em 35mm trocados a cada 20 minutos. Outro trabalho do público que precisa identificar as pontuações, que, às vezes, o simples nome do personagem importado já explique o tom indicador.

A fotografia nostálgica de 1969 passando à década de setenta, com suas cores hippies, que na primeira cena preto-e-branco, imprime contornos de atitude estética clássica acoplada com a moderna de forma hipster e elegante, por exemplo, o grupo de mulheres sozinhas, livres e feministas, ao som da música “Mrs. Robinson”, de Simon & Garfunkel. “Era Uma Vez Em Hollywood” é também uma grande picardia com geografias e comportamentos, como não chorar na frente de mexicanos. E ou com o movimento hippie. E ou um Bruce Lee descompassado. E ou com Brad Pitt sem camisa. E ou com Brad Pitt “homenageado” em “Clube da Luta”. E ou com a mansão Playboy, que tinha Steve McQueen como um dos participantes. E ou a mulher que ronca na cama (sem vaidade alguma). É a vida como ela é, altamente pulpfictionesca.

Se traduzirmos o tom do filme, então perceberemos uma estrutura de trailer de cinema, com suas narrações-resumos (como relatórios protocolares); com suas cenas que estendem o tempo da ação (milimetricamente projetada); com seus cortes rápidos. É pop arte com miojo. Sexy. E revolucionário e transgressor a fim de chegar em Charles Mason, o vilão da vez e deste longa-metragem, fundador e líder de uma seita que cometeu vários assassinatos nos Estados Unidos, entre eles está o da atriz Sharon Tate, esposa do diretor Roman Polanski.

“Era Uma Vez… Em Hollywood” é uma experiência mise-en-scène. Cada close, ângulo e o porquê do posicionamento são sistematicamente pensados. A câmera dança com atitude que acontece em um Set de filmagem e suas interferências externas. Mais Zapata, menos “Bonanza”. “Não quero um caubói de televisão, e sim ator”, diz-se. A cerveja espirra no óculos.

Entre sonhos, repetições, “homicídios involuntários” (“todo mundo numa briga mata alguém”), criança superdotada aos oito anos (com a biografia de Walt Disney, filme “The Wrecking Crew” com Dean Martin, raivas explodidas, Whiskey sour, o cabelo nas axilas de uma garota de amor livre, tudo é uma crítica ao universo de “Hollywood”, “invadido” por pessoas que moram em trailers. É amigável e sensitivamente espontâneo com um controle absoluto da direção.

“Era Uma Vez… Em Hollywood” objetiva retirar o glamour, por exemplo ao mostrar as fachadas neon sendo acesas. E o final apoteoticamente violento representa oficialmente o gênero Tarantino, mestre em conduzir histórias. O espectador sabe exatamente o que vai acontecer, mas precisamos descobrir a forma escolhida. É um filme que leva o púbico a outro universo, a novos sentimentos, a uma emoção real que emana do próprio ser. Já posso dizer que esta será a Palma de Ouro?

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