9 Dias em Raqqa

A segunda como farsa

Por Vitor Velloso

Durante o Festival É Tudo Verdade 2021

A trajetória de Leila Mustapha já é o suficiente para protagonizar qualquer filme. Jovem, mulher, prefeita, tentando reconstruir uma cidade, consolidar uma reconciliação e estabelecer a democracia, Leila encontra a ruína deixada na antiga capital do Estado Islâmico e se torna objeto de interesse em uma publicação francesa, encabeçada por Marine de Tilly. Esse encontro é o interesse de “9 Dias em Raqqa” de Xavier de Lauzanne

Inicialmente o espectador desconfiado das intenções francesas pode iniciar a projeção com severas dúvidas de Marine e da produção assinada por Lauzanne. Porém, sem grandes rodeios a desconfiança cai por terra, dando lugar a certeza. O interesse é na retomada democrática, nas possíveis vendas e prêmios que irão se beneficiar da imagem de Leila. Nada que poderíamos esperar mais dos antigos imperialistas. A filmagem não centraliza na curda, se divide entre as duas mulheres, tentando encontrar o que há de comum entre as duas, culminando na comparação à la Fiuk, colocando-se no pódio da própria intencionalidade política. Marine é uma espécie de coach motivacional para cada atitude de Leila. Admira sua coragem, mas se admira ainda mais por estar ali coletando dados para lucrar alguns euros na Europa. 

“9 Dias em Raqqa” é uma síntese das ações midiáticas francesas na Síria. Sua preocupação termina quando os prêmios e louros extraídos da história alheia estão presentes no armário. O longa se concentra nessa relação entre as duas mulheres, mas busca, em especial, a construção de uma imagem para exibir internacionalmente. Quer entender as motivações e trabalhos políticos costurados na cidade de Raqqa, mas não está ali pela cidade, mas sim pela imagem de uma mulher forte e destemida. A montagem é caótica, não se encontra, os espaços não se contextualizam, tudo está suspenso, a cidade é secundária. Não há um olhar crítico para nenhuma medida tomada anteriormente, um diagnóstico dos impactos causados pelos egos inflados dos países imperialistas, mas há uma profunda necessidade de reforçar que seus esforços democráticos são de grande importância para a humanidade. A estratégia é bastante clara, conseguir um platô político no combate às forças do Estado Islâmico na região, agilizando sua completa dissolução. 

Marine e Lauzanne dividem palco em uma egotrip européia de fala mansa. A “reflexão” é necessária quando a crise humanista atinge os apaixonados corações franceses, historicamente negacionistas. Marine compara-se, diz que os “9 Dias em Raqqa” aproximam as duas mulheres de realidades tão distantes. O negócio fala mansa vai tentando “poetificar” em cada nova esquina, criando essa imagem inexorável de uma heroína retumbante, com feitos gloriosos e aproximações com deidades e figuras históricas. Está certo que Leila é de uma força descomunal, mas o próprio título parece dar pistas do que iremos encontrar aqui. O encontro dessas “duas mulheres excepcionais” (em fala próxima de Marine). Raqqa, a cidade a ser construída, surge como um mero “obstáculo” para santificar a figura que está colocando tudo nos eixos democráticos. Prosperidade econômica é o próximo passo, faltou gritar os dois franceses. Devem ter esquecido. Eles torcem para aceitar cashback, em um futuro próximo. 

“9 Dias Em Raqqa” possui um tema forte, uma possibilidade de captura privilegiada, uma mulher forte e uma cidade mergulhada em um dilema político e religioso que deve ser debatido de maneira crítica. Mas a pretensão imperialista, na ideia de representação e fortalecimento das “bases democráticas” ao redor do globo, se tornam cada vez mais explícitas quando o ego de Marine deve ser exaltado a partir de pequenas comparações poéticas conservadoras que realiza. Entre o criacionismo e a organicidade política e econômica mundial, o projeto busca uma reflexão desse encontro, em “realidades tão diferentes”. Como os príncipes exibindo registros em países depois de uma batalha/guerra, os jornalistas franceses decidiram cobrir com mais afinco a situação na Síria. Quem sabe uma nova democracia, não?

“foi preciso um primeiro policial morto para o francês perceber um argelino.”

Não aprenderam desde a última vez.

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