Zombi Child

As Maneiras Continuam Boas

Por Jorge Cruz

Durante o Festival do Rio 2019

Em 1962 o Haiti vivia o auge do Governo de François Duvalier, também conhecido como Papa Doc. Um período em que as camadas populares testemunharam um representante interligado a eles se revelar um sanguinário ditador. Nesse cenário, o diretor e roteirista francês Bertrand Bonello tenta fazer a mesma mistura de drama e terror com crítica social tão presente no cinema das últimas décadas. Ao contrário do cineasta mais celebrado do gênero no momento, o norte-americano Jordan Peele (que esse ano seguiu sua brilhante carreira comNós), os objetivos alcançados com “Zombi Child” estão longe de agradar. Pelo contrário, estão bem mais próximos de reforçar a visão eurocêntrica destruidora da multiplicidade cultural do planeta.

Os países latino-americanos guardam traumáticas consequências do período de colonização (oficial) européia. Terras que não conseguem levar adiante projetos autônomos de nação, com seus sincretismos. O Haiti, um dos países mais pobres da região, teve que incluir em sua constante crise um devastador sismo no ano de 2010, que vitimou mais de trezentas mil pessoas e deixou um número ainda maior de feridos e desabrigados. Usar esse fato recente da História significa não fugir da imediata identificação de quase a totalidade da população de um país. Bonello parece dar a mesma importância que Hollywood dispõe quando generaliza determinado povo, nação ou religião para fazer valer a dicotomia herói-vilão em seus filmes de ação e terror.

Partindo daí, “Zombi Child” se desenvolve em duas linhas do tempo. Na primeira, nos anos 1960, um homem é ressuscitado para ser escravizado nas colheitas de cana-de-açúcar. Na segunda uma jovem, que perdeu os pais no terremoto acima citado, tenta se adaptar a uma tradicional escola francesa. A narrativa nem tanto, mas a estética do longa-metragem dialoga muito com “O Clube dos Canibais“, produção nacional de 2019 que, de fato, constrói uma crítica social muito mais edificante – mesmo com outras questões trabalhadas naquela crítica. Em um primeiro momento, a abordagem parece promissora. Como um bom terror setentista, o filme inicia sua trajetória com um arco narrativo dramático, em um ritmo de ambientação que pouco se viu depois que “Halloween” (1978) e o que lhe seguiu nas quatro décadas seguinte realizou. Ao invés de jump scaresum paralelo entre o apreço pela escravização de humanos na primeira linha do tempo e uma aula crítica sobre a Revolução Francesa e como os ideais da ascensão burguesa não foram totalmente colocados em prática na segunda.

O desafio óbvio que a protagonista Mélissa (Wislanda Louimat) seguiria era o do bullying. Mesmo bem resolvida com sua negritude, ela se vê em um contexto onde o tradicionalismo burguês lhe reservará olhos de exotismo. A câmera de movimentos lentos e a trilha se valendo de um canto lamurioso vai tornando “Zombi Child” uma obra perturbadora, como é de se acreditar que seria. Nas quebras de tensão, exemplos de rap de imigrantes e descendentes marginalizados de uma França, onde a luta pela promoção da dignidade é constante, dão o tom. A trama de Bonello se vale do fato do internato onde a protagonista estuda ser exclusivo para meninas para imputar a falta de interação com o sexo oposto certas atitudes questionáveis das personagens. A crueldade não é fundamentada, até porque “Zombi Child” baseia sua abordagem na expectativa, deixando suspensa de forma interminável boa parte das ações. Só que, ao contrário de Peele, faz isso com omissão de informação, transitando entre os ambientes sem explorar as particularidades dos mesmos.

Essa forma de querer instigar o espectador a unir as duas histórias sem agir de forma crescente, não funciona. À exceção de um debate racial já na segunda metade do longa-metragem, é difícil criar recortes de sequências específicas na cabeça ao final da sessão. É quase como se Bertrand Bonello nos mostrasse mais um pouco da mesma coisa, parecendo aqueles álbuns de fotografias que os parentes mostravam quando voltavam de uma viagem. Minutos intermináveis de cenários parecidos, com os detentores do poder de contar a história tentando contextualizar o que está sendo visto. Todavia, dentro dessa encruzilhada narrativa de criar um final – como se fosse obrigatório em um filme – “Zombi Child” erra a mão.

Menos mal se o grande problema do seu último ato fosse a inserção de personagens e falas com o intuito de tecer longas explicações. Veja, o filme cria uma linha do tempo paralela à história de Mélissa, mas precisa colocar na boca dela um jogral da sua ancestralidade dentro de uma roda ritualística para ter lógica. O longa-metragem se perde de vez ao desembocar toda a sua tensão em representações lisérgicas de manifestações religiosas tradicionais. A inserção do realismo fantástico é quase como se confirmasse a suspeita de exotismo criada ao longo do seu desenvolvimento. É a materialização da visão discriminatória etnocentrista, com o agravante de seus realizadores representarem o poder hegemônico. As mesmas restrições que o elemento racial gera em “As Boas Maneiras“, produção nacional que dividiu opiniões quando de seu lançamento em 2018. Já seria complicado se ambientação, desenvolvimento e exploração das tensões fosse minimamente eficientes, como o são na obra de Juliana Rojas e Marco Dutra. Por não ter nada disso, resta a “Zombi Child” pouco mais do que a mera reprodução de preconceitos.

 

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