Vozes da Memória

Na Saúde e Na Doença

Por Jorge Cruz

Mostra Sesc de Cinema 2019

Nos primeiros minutos de “Vozes da Memória“, dois personagens que parecem ter chamada a atenção da diretora Raissa Dourado e da montadora Michele Saraiva. O primeiro é um senhor que acabou se tornando um jornalista acidental, quase que confirmando um certo ar provinciano em Porto Velho, uma das capitais menos populosas do Brasil, ultrapassando meio milhão de habitantes há poucos anos. Nessas múltiplas dimensões e formas de se entender o Brasil, o principal município de Rondônia não seria nem uma das dez cidades mais populosas do Estado de São Paulo, por exemplo.

A segunda personagem é uma artista de rua que vivencia a realidade difícil e traumática de quem tenta oferecer seu trabalho a despeito da repressão das autoridades e dos olhares julgadores de muitos – e ao mesmo tempo exerce com todo vigor sua fá evangélica. Um exemplo cada vez mais raro de união entre arte militante e religião, em uma época onde Deus e Cultura parecem lados de uma moeda. Dessa maneira, o curta-metragem “Vozes da Memória“, exibido na 3ª Mostra Sesc de Cinema, inicia sua trajetória, logo após um prólogo que vincula o mormaço com os verdadeiros donos da rua.

Essa abordagem privilegiando a ocupação urbana aos poucos vai se embrenhando no terreno de revisitação. Com imagens de documentários e reportagens dos anos 1980, se volta para as mudanças tecnológicas e de discurso de uma Rondônia que dobrou sua população no período. Esse entendimento como obra cinematográfica, fazendo com que seja mais um documentário a se aproximar de uma boa reportagem, funciona bem aqui – mesmo que os acertos não se revelam de forma tão óbvia.

O que há de mais edificante em “Vozes da Memória” é como, ao tentar apresentar um outro Brasil, Dourado acabe se deparando com elementos que nos une enquanto nação. Os dois que se destacam não poderiam ser mais antagônicos: a repressão do governo militar antidemocrático iniciado em 1964 nos leva a uma resistência boêmia com o bar Taba do Cacique, a forma mais romântica e cirandeira de se opor a um regime político sanguinolento; e o próprio cinema nacional – à época ainda dependente do translado de rolos de filmes para que os Brasis pudessem estabelecer vínculos através das grandes telas. Só que agora, com a facilidade de se conectar, documentários tão esclarecedores como este podem ser vistos semanas após sua finalização – e aguardamos que isso se reflita em uma formação mais crítica da sociedade brasileira.

 

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