Viajantes: Instinto e Desejo

Mais uma rasteira descartável

Por Vitor Velloso

Amazon Prime Video

Acostumado a assinar algumas das piores bombas anuais que Hollywood produz, Neil Burger já é um nome marcado no mar de produtos descartáveis norte-americanos. “Voyagers” chega na Amazon Prime Video para lembrar ao público que o Beezos já não joga algo de qualidade no catálogo há um bom tempo. O filme é como todos os enlatados de ficção científica que chegam do norte, uma proposta estéril, marcada pela ausência de fortes emoções e que sempre problematiza o caráter da consciência humana em meio ao isolamento do espaço e das missões futuras que devem salvar a humanidade de uma catástrofe.

A ideia é tão batida que a própria sinopse já é faz o trabalho da antessala para uma possível desistência precoce. E se a linguagem poderia procurar uma nova forma de trabalhar uma história tão clichê, faz o oposto, assume cada centímetro da obra como uma mera reprodução barata dos enlatados que acabam morrendo nos serviços de streaming. Neil Burger se tornou uma bala de prata para algumas produções medonhas e duvidosas. A tentativa de articular uma ideia por trás do controle social a partir de drogas que inibem determinados “impulsos”, é o retorno de uma objetificação narrativa de décadas. E as vinhetas tentam retornar a encenação ao campo material mais palpável, partindo de analogias fajutas como animais caçando uns aos outros e natureza selvagem em abundância. Há alguns anos, Lars Von Trier teve a mesma sacada de quinta categoria e caiu na mesma mimesis superficial, que acaba servindo de muleta nos paralelismos “conceituais”.

E quando tudo parece demasiadamente frágil, “Voyagers” consegue piorar progressivamente. Desde uma assombração extraterrestre de uma tosqueira retumbante ao de férias com ex no espaço, o jogo de poderes e tesão vira um barato insuportável. Que apenas se intensifica negativamente com a maior parte das interpretações. Com exceção de Lily-Rose Depp, o elenco “estrelado” por Tye Sheridan, Fionn Whitehead e Colin Farrell é de uma cafonice aguda. Sheridan vem dividindo seu tempo entre algumas bombas, Fionn nunca mostrou para o que veio e Colin Farrell faz o que sempre soube fazer, construir uma persona monótona, tediosa e incapaz de se sustentar para além de um suposto carisma construído pela indústria. Temos um longa “tão Black Mirror” que chega atrasado algumas décadas nas discussões e alguns anos para pegar a crista da onda do seriado. Típico de Neil Burger.

Uma parte da narrativa, que faz referência clara à “2001 – Uma Odisséia no Espaço” (1968), que utiliza o mesmo caráter simbólico da tecnologia como parte inicial da dominação e violência generalizada, é um dado substancial da construção do filme. Isso porque a superficialidade do roteiro é incapaz de fugir do velho discurso que assume a “natureza humana” como violenta, opressiva, amorosa, sexual etc. O problema está longe de ser compreensão de particularidades da mente humana diante do “inconsciente coletivo”, mas essa tomada de consciência para além do mecanismo social ali presente, surge como uma espontaneidade ocasional, ou seja, o “orgânico” que a indústria tanto prega ao conceber uma sociedade em funcionamento, com suas amarras programadas. Uma ideia que não consegue se sustentar por cinco minutos, recorrendo às necessidades tecnológicas para expansão da influência das gangues que a nave “produz” (afinal, é algo natural, não?). Aí entram essas vinhetas débeis que apenas expõem o raciocínio rasteiro do longa.
Nem mesmo a tentativa de demonstrar o rigor dessa sociedade em funcionamento funciona nos minutos iniciais e quando existe um rompimento dessa esterilidade da imagem, dá-se lugar à histeria de não ser capaz de dinamizar os espaços fechados com os atos violentos que vão se sucedendo.

Unindo-se à “O Mundo em Caos” (também da Lionsgate), o projeto já comparece entre os piores do ano, com um adicional, a distribuidora define “Voyagers” como “uma versão de ‘O Senhor das Moscas’ no espaço”. Além do caráter irônico aparente dessa divulgação, o descarte parece nunca ter fim em um ano que os serviços de streaming estão disputando com a grande tela quem recebe mais subprodutos from Bidenland.

Trailer

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