Voltei!

Vai dizer para a preta parar agora?

Por Vitor Velloso

Durante a Mostra de Tiradentes 2021

Glenda Nicácio e Ary Rosa já se destacaram e conseguiram um lugar especial no cinema brasileiro. Ano passado, exibiram um dos melhores filmes do ano, “Até o Fim“. Agora, em 2021, chegam com “Voltei!” para formalizar o ímpeto criativo diante da precariedade na produção cultural brasileira. O barato é diferente mas tá em sintonia com o longa anterior, é uma espécie de continuação espiritual e formal, que assimila uma ideia de registro com o rigor vívido na encenação.

O ritmo é cadenciado por uma articulação simples, complexa, dinâmica, materialista, tradicional e todo um misto de coisas que vai somando ao projeto. Existe um misticismo que norteia a obra da dupla que surge como uma força que une uma diversidade de proposições estéticas e culminam nessa suposta “naturalidade”, que encontra apoio nas interpretações de Arlete Dias, Mary Dias e Wall Diaz. Contudo, a organicidade está nos olhos de quem vê, pois a consciência desse jogo formal é bastante rigorosa mesmo em um aparente caos. A maneira como a montagem consegue abrir um fluxo diante dessas imagens e sons, transforma essa experiência em algo de continuidade impressionante, mas “Voltei” retorna ao movimento de espera, aguardo, uma ansiedade que vem crescendo junto com essa realização que possui uma transa do fixo com o prazer vulcânico das perspectivas diversas. Não à toa, é uma obra que possui uma onda particular que cruza parte de sua projeção, o rádio.

Esse elemento é fundamental para o funcionamento de determinadas denúncias feitas pela obra e por sua catarse que é prolongada em cantoria de Obaluaê, cerveja quente, luz e cu. “Meu nome é Brasil” marca um dos momentos mais potentes da obra, sendo manifesto de gira, Brasil e ancestralidade.

Durante a projeção, o espectador irá acompanhar, junto às personagens, uma votação no Congresso, repleta de nomes familiares: Onyx e Damares Ustra e… outros que creditarei à surpresa durante a exibição. Essa votação, dita parte do encaminhamento da obra, por possuir uma relação direta com todos os acontecimentos dramáticos. Esse Brasil de 2030, mais materialista e honesto que o Brasil de “Bacurau”, consegue impor vontade, discussão, brasilidade e sem curvar-se ao cientificismo burocrático e importado que marca a obra do “Carcará Desidratado”.

Há diversos méritos formais presentes em “Voltei!” sua quebra de narrativa para determinadas falas e/ou respostas, demarcando uma estrutura dramática com mais veemência, quase visceral. A maturidade do enquadramento, que não cede ao corte fácil, mas compreende os momentos de impacto para se postar em projeção, um repertório múltiplo de como criar uma representação sólida diante de uma realidade tão similar. Porém, há alguns momentos que acaba fragilizando a proposta por uma tentativa de findar um discurso com o impasse do recorte da imagem, o que gera um embaralho na percepção e dá um nó na construção estética e narrativa. Os motivos são claros, mas significam um deslize nessa dinâmica do materialismo presente na tela. Por outro lado, algumas dessas interrupções conseguem efeitos curiosos, a confissão é um momento de impacto e lembra brevemente o Brechó, em “Até o fim”.

Ainda assim, apesar de alguns baixos, “Voltei!” possui todas as características de Glenda Nicácio e Ary Rosa, com uma proposição política que ultrapassa a imagem, o corpo e aqui formula dois espaços distintos de realidade, um em suspensão, outro visual. A transa do rádio com a realidade que estamos vendo no registro, é parte do funcionamento desse barato do imediato. E por isso, o longa é tão ambicioso, pois permanece com suas verve do Recôncavo, mas capilariza essa frente como unidade nacional, materializada em um governo fascista e genocida que fuzila artistas em praça pública e persegue esquizofrênicas, tendo como contraponto três irmãs à luz de vela, bebendo cerveja quente, mordendo violão, cantando, bradando contra o …  dos outros  e seguindo a oralidade como tradição possível da arte de contar histórias em meio a perseguição que vivem. “Voltei!” é cinema, mas suas personagens são privadas de energia elétrica e recorrem ao rádio de pilha para torcer pelo futuro de suas vidas.

Não há muito o que se esperar de um governo que realiza um plano estratégico de negacionismo, vende placebo, receita remédio por um aplicativo, extingue o Ministério da Cultura, fuzila artistas em praça pública. A caquistocracia do Brasil de 2030 é um horror. Mas para Ary Rosa e Glenda Nicácio, há luz no final. Luz de cinema. Luz para gelar cerveja. E ver o que espreita.

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