Até o Fim

Enfia Esse Oscar no...

Por Vitor Velloso

Crítico convidado pela Mostra de Tiradentes 2020

“Até o Fim”, nova obra de Glenda Nicácia e Ary Rosa apresentada na 23ª Mostra de Cinema de Tiradentes é um dos maiores respiros do cinema nacional da década. A afirmação pode parecer precoce, mas o tempo há de confirmar que equivocado só os que pedem, em seus comentários, através deste mundo binário, características tão distantes da brasilidade projetada na tela. Silêncio e contemplação para os que querem o maneirismo ortodoxo dos que tanto nos colonizaram através das telas ao longo dos anos. Referencial estrangeiro ou palavra gringa para os que não reconhecem na oralidade e no sotaque, o extermínio do velho mundo.

“Até o Fim” é tudo aquilo que provoca a reatividade dos defensores do pássaro esbranquiçado aplaudido pelos europeus. É Brasil. É cerveja. É procura das bitucas de cigarro em meio a areia de um litoral que carrega suas histórias perpetuadas pelas mulheres que recusam o fálico em suas narrativas inflamadas, que caóticas circulam na mente dos que necessitam das pausas estoicas de obras que se curvam. É antropofagia de tutano. É cuspe de literatura canhestra. É regurgitar o membro e o bico de tentar exprimir a intelectualidade da que o pariu.

Construindo toda sua narrativa a partir de uma conversa entre quatro mulheres, os conflitos familiares se expõem e toda a questão dramática se impõem diante de seu público, que não respira em meio a velocidade da montagem que recusa a ordem e a temporalidade. Salta de um lado ao outro com uma consciência monumental, conferindo a todas as camadas uma multiplicidade e uma facetação que só o cinema nordestino é capaz de compreender. Em si e para si, a necessidade formal se mescla com a tradição cinematográfica brasileira em suicídio estrutural para que de uma coletividade, entre as múltiplas telas, haja uma concordância dos corpos que ocupam a tela de Tiradentes. Uma representatividade que os olhos adestrados torcem suas expressões em busca de uma condução com hifens e a pronúncia rebuscada da palavra que tanto gostam de debater entre suas escritas e a lente que esconde o abraço triunfal da cínica bandeira tricolor que guarda o maior monumento fálico deste mundo que nos guarda.

E é essa postura tão enraizada de uma cultura que não se absorve entre os gestos complacentes dos compartilhamentos gringos, que incomoda os malvadinhos do puritanismo que rogam pelo fim das rotulações midiáticas, que se movem nas cadeiras recitando aquilo que diz odiar, que preza pelo “intelectualismo” do veículo. Parafraseando a obra que escrevo sobre: “Enfia o Oscar no…”. Doa a quem doer, a lírica é assim, a recusa a padronização é essa. “Até o Fim” assume isto em cada segundo que é projetado na tela. Quer mastigado? Se morda. E o faça junto à conjugação.

Di Cavalcanti, o que reconheço, em seu último leito sorria. Sua obra que atravessa a janela histórica vislumbra uma expressão nordestina que agora vence o Júri Popular e nos relembra que uma carreira monumental vem sendo construída através de talento e não de necessidade de autoafirmação através da rede dos egos. A atenção aqui não é exaltada como uma forma de expressão e separação de um meio tão desarticulado, mas sim da personalidade de dois cineastas que, mais do que resistir, lutam por um reconhecimento do cinema brasileiro. Tema de suas obras. E muito além disso, de uma Bahia com H representada por quatro mulheres negras. O preconceito é um traço arcaico que acaba atropelado de forma sublime por um fim de projeção que nos resta o aplauso de pé.

Em performance descontínua, Oxóssi, Ogum, Xangô, Ibualama e Logun Edé são recitados em canção pela não normatividade do povo que orgulha este país. Em texto de Brechó, o Recôncavo se levanta em luz contra a padronização de nosso cinema. Com o perdão de quem nunca lhe pediu, permaneçam calados os que ousam buscar o silêncio.

“Até o Fim” não é contemplação, é gerúndio de uma necessidade brasileira de expressão cinematográfica. É o provérbio de um povo a tanto tempo silenciado de seu cotidiano e turbulências familiares. É a forma do Brasil se reencontrando através dos planos rápidos, da simplicidade da encenação e do contexto do sangue compartilhado que se reencontra em brasilidade, pela partilha etílica e da nicotina escassa.

O cinema estrangeiro está no papo!

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