Um Pouco de Esperança

A vida requer coragem

Por Francisco Carbone

Assistido presencialmente durante a Mostra de São Paulo 2026

Um Pouco de Esperança

Tarefa inglória: assistir a uma produção iraniana, que verse sobre um dos maiores tabus daquela sociedade – o suicídio – e conseguir não lembrar de “Gosto de Cereja”, um dos maiores clássicos do cinema de todos os tempos. O filme de Abbas Kiarostami não somente ganhou uma merecida Palma de Ouro em Cannes, como continuamente nos fazia abrir os olhos para mais uma questão envolvendo o Irã e suas práticas violentas de cerceamento narrativo e social. Dessa forma, o conterrâneo Ali Asgari já sai de trás de “Um Pouco de Esperança” com o respeito em alta, porque não somente retorna ao assunto, como não viu motivos para tornar-se, em termos, comparado a um dos maiores cineastas que o cinema mundial já produziu. Quando o susto inicial passa, descobrimos que a visão do cineasta é abrir o tema a algo como um raio de sol.

Arash está decidido a tirar a própria vida, e assim que “Um Pouco de Esperança” se inicia, assistimos ao primeiro dos três irmãos do protagonista recebendo a notícia. E será assim ao longo do dia, reencontrando irmãos (incluindo uma delas do qual estava afastado), tentando resolver algumas pendências como médico – profissão do qual está impedido de atuar – até chegar a noite, e sua mãe ser a última a receber tal notícia. Esse era o plano inicial de Arash, que vai se diluindo na frente do espectador conforme tal situação se mostra menos decisiva, e seus contornos são gradativamente revelados. E aí, o Irã enquanto nação é ainda mais questionado por Asgari, que denuncia também as ordens do Estado na direção contrária ao que deseja e sente seu povo.

Diferente da maneira elegantemente fatalista que determina os caminhos do centro moral do personagem central do filme de Kiarostami, aqui Arash é um homem cuja depressão se confunde com uma revolta por não ter mais controle da vida em que acredita. Essencialmente, o protagonista de “Um Pouco de Esperança” é um médico que verdadeiramente se preocupa com seu semelhante, além de ser um cara essencialmente bom, e foi exatamente essas duas características que o colocaram na situação onde ele se encontra. O fato de que o filme se passa na maior parte do tempo em campo diurno, e que tais predicados sejam sempre apontados em seu percurso, trazem ao filme alguma leveza, que deve ser definida assim pelo tom suave que seu ator apropria-se da força das coisas.

Missagh Zareh, que já tinha impressionado no protagonista de “A Semente do Fruto Sagrado“, consegue domar em absoluto seu personagem anterior, para se mostrar frágil e diminuído aqui em “Um Pouco de Esperança”. Através de seu corpo de ator impressionante, o espectador compra tal personagem na tragédia que ele emprega. A sensação de que estamos acompanhando uma pessoa que claramente clama por ajuda profissional psicológica, mas que não esconde sua vocação para a justiça e o bem querer, monta um filme delicado, e isso é também contribuição de Zareh. Na interação com o resto do elenco, o filme mostra um acerto ainda superior ao montar um grupo coeso e que define bem as dores de um povo.

A direção de Asgari se constrói de momentos delicados que concentram também intensa força imagética, pela maneira como o realizador escolhe situar as escolhas que faz. Temos como o exemplo a volta de Arash ao consultório fechado, onde a disposição dos elementos revela aos poucos parte do que aconteceu ali, sem o apoio de obviedades. Além disso, a personagem que o leva a voltar ao seu posto é a um só tempo muito funcional para apresentar ao espectador parte essencial da história, e também um código muito preciso do cinema iraniano, uma daquelas personagens tradicionais cuja teimosia e insistência contínua nos faz recordar de como esse tipo traduz sua filmografia.

Esse é um daqueles títulos onde a simplicidade acaba por tornar a ordem das coisas menos determinante para a qualidade da mesma. A maneira até um pouco previsível se mostra menos relevante para o resultado final, porque o espectador é verdadeiramente tomado pela alegria de conhecer pessoas tão afáveis ao longo do percurso. Ainda que perca a oportunidade de mostrar-se ambíguo com um belo desfecho no sofá, “Um Pouco de Esperança” não queria deixar dúvida a respeito do fim de seu protagonista. Se perde o impacto visual, ganha na vontade de mostrar o outro lado da coragem.

3Nota do Crítico51

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