Um Espião Animal
Sem Voar e nem Decolar
Por Jorge Cruz
“Um Espião Animal” segue a cartilha de animações da Fox iniciada com a bem sucedida franquia “Era do Gelo“. Tramas envolvendo animais falantes e longas-metragens que esteticamente dialogam entre si. A pomba dublada por Will Smith, por exemplo, parece sobra de elenco dos filmes “Rio“ e “Rio 2“. Inspirado livremente no curta-metragem “Pigeon: Impossible“, o resultado é um filme que não parece nunca decolar. Toda a trama é centrada apenas na dupla de protagonistas. Walter (Tom Holland) nos é apresentado ainda criança, como um menino que não quer ir para a escola por conta de eventuais bullyings sofridos. Filho de uma policial, ele se revela um inventor prodígio, ainda que suas criações pareçam não fazerem sentido.
Animações no estilo de “Um Espião Animal” parece que sabem que precisam de alguns elementos externos para chamar a atenção. Um dos expedientes muito utilizado é a reciclagem de canções populares das últimas décadas. Nessa produção, tirando a boa abertura que conta com uma canção original, por algumas vezes isso ocorre. A história é banal, se sustentando apenas pelo carisma de Smith. O astro, aliás, volta à dublagem após quinze anos – a única vez em que tinha emprestado sua voz a um desenho foi em “O Espanta Tubarões“, outro filme mediano. Ele segura bem as pontas, tornando até a personagem de Holland subutilizada. Se não fosse a presença de duas grandes estrelas e a informação de que o orçamento do filme foi nada menos do que cem milhões de dólares, a sensação é de que trata-se de uma “produção menor”. A Disney lançou esse representante do espólio da Fox nos Estados Unidos no mesmo final de semana de estreia de “Star Wars: A Ascensão Skywalker“, evitando assim um confronto direto com “Jumanji: Próxima Fase“. O resultado foi uma catastrófica bilheteria de pouco mais de 50 milhões de dólares – sendo apenas um pouco melhor ao redor do mundo. Até o momento, o longa-metragem mal se pagou e seus personagens e tramas genéricas deverão dificultar ainda mais a permanência da história na memória do público.
Quando o espião vira animal, no caso uma pomba, Will Smith explora sua interpretação mais leve e caricata. Contudo, “Um Espião Animal” não vai mais adiante porque, além de seguir como uma cartilha todas as convenções do gênero, é pouco conflituoso. Feito quase que exclusivamente para os mais novos, trata-se do escapismo mais raso que pode ser oferecido. A experiência de assistir ao longa-metragem se limitará às férias escolares e ao domingo depois do almoço, quando não se consegue deixar a televisão apenas para as crianças reverem a pomba falante sozinha. A desculpa para o antídoto de Walter não fazer defeito até gera certo desconforto sexista no final do segundo ato, o que não deverá passar despercebido pelas crianças. Pena que a questão do masculino e feminino seja pouco trabalhada – assim como qualquer elemento narrativo dessa obra.
O roteirista Brad Copeland entregou trabalho bem mais inspirado em “O Touro Ferdinando“. Nesse novo texto ele precisa adicionar o star power de dois atores com público cativo, seja pelas décadas de sucesso ou por fazer parte do Universo Marvel Cinematográfico. Copeland divide a função com Lloyd Taylor, praticamente estrante em longas-metragens. Esperamos que ele não siga os passos de seu parceiro e faça tragédias como “Zé Colméia” (2010), uma produção que nos lembra há quanto tempo Hollywood vive de reembalar materiais pré-existentes. Até que este longa-metragem é um caso (cada vez mais raro) de semi-originalidade. Apesar da inspiração no curta-metragem mencionado, este foi pouco visto pelo público. Só que a trama da pomba que não consegue voar, como já foi dito, não decola. Não chega ao ponto de ser entediante, mas se mostra com tão pouca vitalidade, que as cenas passam diante dos olhos sem que nada seja provocado.
Apostando em um humor mais físico, não há na obra nenhuma representação, mensagem ou gatilho emocional que seja. É tão formulaico que é possível antecipar até a maneira como as sequências de aventura se desenvolverão. O que a Fox fez nessa animação, ironicamente a primeira ser lançada já sob a administração da Disney, é traçar um terceiro ato idêntico ao que sua nova chefe faz com o braço da Marvel. Tirando qualquer resquício de trama de espionagem, ergue um supervilão e traz a velha mistura de alta tecnologia e trabalho em equipe.
Por fim, constrói seu único personagem mais complexo, o espião-pomba Lance de maneira incipiente. Um homem que não consegue mostrar sua faceta auto suficiente, a despeito da sequência de abertura. Acaba dando uma guinada de decisão que, no fundo, é quase um corta-luz do roteiro para dizer que há em “O Espião Animal” algo edificante. Por fim, revela-se um filme que tomam para si o escapismo infantil para se tornar quase inatingível aos mais velhos.