Um Dia Qualquer

Artificialismos e seus formatos

Por Vitor Velloso

Durante a Mostra CineBH 2021

“Um Dia Qualquer” é um projeto confuso em parte de suas ideias. Costurando bate-bola com milícias e igreja evangélica, o filme de Pedro von Krüger parece mais preocupado com caracterizações cotidianas e padrões estéticos do suspense do que articular uma encenação que seja capaz de desenvolver seus personagens neste mundo particular. Apesar de estar localizado na Baixada Fluminense, a sensação para o espectador é que estamos em um grande cenário artificial, com relações artificiais e diálogos programáticos.

Existe aqui uma objetificação dos conflitos políticos, sociais e religiosos presentes em localidades cariocas, que se desenrola à um arquétipo shakespeariano nos trópicos fluminenses. Apesar do início curioso, onde a montagem nos apresenta a festividade em contraponto aos criminosos conversando em um carro, rapidamente as coisas começam a desembocar em uma certa falsidade situacional, como quase todos os diálogos e cenas presentes na obra. “Um Dia Qualquer” consegue isolar seus personagens em torno do “projeto” e do terror, mas nunca parece saber o que fazer a partir desse núcleo. Tudo é muito solto, expondo brevemente alguma questão da realidade e partindo para novas cenas onde autoridades são colocadas em xeque e o poder institucionalizado soa amador. O sumiço do professor, o pontapé dos conflitos dramáticos, é escanteado pelas tramas rocambolescas que vão se amontoando, nenhum dos personagens toma atitudes condizentes com a situação e se o “nós somos uma nação sentimental”, aqui a ideia parece diluída na imposição de gírias mal faladas e figurinos pré-fabricados ideologicamente nas Novelas da Globo e filmes publicitários.

Sem conseguir convencer muito, o espectador pode permanecer diante da tela para ver como os conflitos vão se encerrar, mas se interessar pelos personagens é um exercício mais difícil que parece. Mariana Nunes, que interpreta Penha, até faz um esforço louvável para dar alguma vida ao artificialismo generalizado, mas é incapaz de sustentar o produto. Por mais que a direção procure dinamizar algumas sequências, com planos que fujam à norma televisiva convencional e amarga, as coisas seguem sintéticas. Quando Penha caminha firmemente com a intenção de pôr fim a toda a confusão, o plano que segue seus passos são robotizados e fabricados. Outro que tenta fugir de certos grilhões industriais é Augusto Madeira, Quirino, também sem grandes sucessos. A produção com o imenso rótulo da “Space”, mostra que a tentativa de desenvolver um produto genérico de crimes, dramas e conflitos, não sai dos estereótipos pré-estabelecidos e permanece em um ciclo de clichês que o espectador dificilmente irá se surpreender com alguma coisa. “Um Dia Qualquer”, mostra que seus recortes para se criar um produto cinematográfico, originalmente uma série de televisão, criam tantos buracos na narrativa, que a própria ideia do “poder paralelo” é deturpada em uma unilateralismo agudo.

Pelo que é possível de se assistir a partir do longa, dificilmente a série vai para lugares tão distantes, ainda que desenvolva outros espectros que não se encerram com tamanha facilidade. E se alguns personagens são facilmente esquecidos na produção “cinematográfica”, talvez tenham algum espaço na telinha, mas ter interesse em se debruçar novamente na história, é difícil. Pedro toma algumas decisões arriscadas aqui, conseguindo um plano interessante ou outro, como dito anteriormente, e algumas dinâmicas paralelas até funcionam, mas o excesso de furos narrativos e dessa artificialidade gritante, faz com que “Um Dia Qualquer” seja uma experiência frustrante. Algumas atuações comprometem gravemente e os personagens espontaneamente abandonados realmente incomodam. Não por acaso, a sensação que fica quando os créditos sobem são duas: quase metade dos personagens não possuem desfecho e alguns produtos não funcionam quando comprimidos a 20-30% de seu tempo original de desenvolvimento. Talvez a melhor ideia fosse manter o formato original e evitar que uma desistência prévia ocorresse.

Trailer

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