Um Casal Inseparável

Os padrões dos cartões postais

Por Vitor Velloso

Na linha de produção dos projetos globais que reproduzem as fórmulas de sucesso protagonizadas pelas celebridades da comédia na última década, “Um Casal Inseparável”, de Sérgio Goldenberg, replica um padrão que já vem entrando em decadência há um certo tempo. É o “Alguém Como Eu” (2017) tentando assimilar vinhetas e toda a fórmula de sucesso de “Qualquer Gato Vira-Lata” (2011), “Os Homens São de Marte… E É Pra Lá que Eu Vou” (2014), ou seja, os produtos instantâneos da grande mídia. O problema é que se em um ou outro projeto, existe um talento mais visível para o humor poder fisgar o espectador em uma cena isolada, aqui o negócio fica complicado. Nathalia Dill, Daniele Suzuki, Marcos Veras e Carlos Bonow se juntam na tentativa de criar algum carisma para algo que já na gênese está descompensado.

Mimetizando os padrões que transformaram cada um dos nomes em grandes celebridades (ou nem tanto) da televisão brasileira, os atores e atrizes revivem os estereótipos consolidados pelo senso comum, tanto no tom galanteador, quanto na estupidez corriqueira de suas ações. É uma comédia de padrões, em todos os sentidos, inclusive no maneirismo como a vida é retratada, através da necessidade da prosperidade, das festas, do jogo de sedução que ostenta um apple watch e por aí vai. A diferença é que as investidas por uma dinâmica que não encontra o tédio a cada esquina, surgem de canções populares que vão se amontoando ao longo da projeção. Mas nada disso é capaz de salvar a disfuncionalidade da comédia romântica que começa cambaleando e termina estatelada. A primeira cena já tira as esperanças, com um humor físico na praia, com cenário de cartão-postal e pessoas do padrão outdoor se estapeando. A alta sociedade da Zona Sul Carioca é repleta das lembranças “turístescas” de cada paisagem que pode reforçar a “beleza natural” do Rio.

O barato tá tão ultrapassado, que em determinado momento “Um Casal Inseparável” precisa apelar para os esoterismos particulares de seus personagens, procurando em cada um, alguma característica que diferencie o longa dos demais. Mas não dá pé: é o amigo burro que só fala besteira e serve de alívio cômico, é a vida saudável e o sonho do empreendedorismo, o macho estúpido que não sabe o que quer da vida, o riquinho musculoso que paga de Coach, a mãe que quer empurrar o “homem certo” para a filha. Esses clichês não funcionam porque o público gosta de vê-los, mas sim porque a indústria padronizou a representação como a única maneira possível de transformar uma história popular em sucesso comercial nas grandes telas. Nem as imagens pré-fabricadas conseguem se sustentar aqui, as coisas são aceleradas e precisam dar espaço para a próxima situação constrangedora que vai nos lembrar que no fim: eles ficarão juntos. É claro, a satisfação de assistir algo já sabendo o final é o que motiva o engajamento durante a projeção. Quem sabe um comentário aleatório na sala de cinema possa surgir “Eu sabia!”.

Mas o subproduto global não é suficiente nem como cópia, além da incapacidade humorística, dificilmente o espectador estará se importando com os rumos dessa narrativa desconjuntada, pois, novamente, o desenvolvimento não poderia ser diferente daquele que dará retorno à produção. “Um Casal Inseparável” parou no tempo e não conseguiu evoluir em nada o próprio subgênero que tenta sugar ideias, é apenas um reflexo turvo de como o lucro molda cada centímetro de uma obra que não se interessa nem por suas imagens, muito menos por seus personagens. O que vale é o caráter publicitário de inserir celebridades em um arquétipo que remonte à felicidade das propagandas de plano de saúde, atravessada pela reprodução tacanha das grandes bilheterias do cinema brasileiro nos últimos anos. Até carisma falta aqui.

Certa vez Glauber Rocha disse que poderiam xingar o filme dele de tudo, menos de idealizar o povo, esse aqui, idealiza tudo que pode.

Trailer

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