Tudo o que está a acontecer no Indie Lisboa 2022

Tudo o que está a acontecer no Indie Lisboa 2022

Um panorama aprofundado sobre o festival mais independente de Portugal que segue até 08 de maio

Por Fabricio Duque

Recomeçar é como uma página em branco. É preciso libertar o antes para que assim o novo possa ser construído, igual a um marinheiro que encontra sua liberdade incondicional sem proteções em uma tempestade. Durante quase dois anos, nossos movimentos sociais foram limitados por causa do COVID-19 que gerou uma pandemia viral e mortal que parecia interminável. E ainda que o Mundo quisesse de toda forma acontecer presencial, nunca me senti tranquilo para “pagar o preço”. Nem o Festival de Berlim, neste ano de 2022, conseguiu a minha presença, especialmente pela propagação desenfreada da variante Ômicron.

Mas quando Cannes foi anunciado, confesso que meus batimentos cardíacos aumentaram. Talvez fosse esse o gatilho: sair de uma caverna para adentrar dezenas de outras situadas em salas escuras. Ao preparar a agenda da viagem, que ganhei status de jornada-aventura dentro da Europa, percebi que poderia incluir o Indie Lisboa. E o credenciamento foi realizado no último dia. E o convite por parte do festival veio dois dias depois. Não. Nunca podemos duvidar do poder dos deuses do cinema. Desta vez, Manoel de Oliveira deve ter mexido suas câmeras do céu especial dos amantes da sétima arte.The Girl from Lark

Esse desbravamento, não mais por mar e sim pelos céus, jogou-me literalmente fora de minha rede de proteção caseira, causando inclusive ansiedades já aparentemente resolvidas no divã online, que acordaram sintomas físicos também já aparentemente consertados. Voltei a enjoar, a sentir meu nervo ciático, a ficar “baratinado”. E se não fosse meu coach psicanalista, eu talvez estivesse sido vencido pelo medroso frio na barriga. Ora pois, como poderia lidar com minha virgindade de nunca ter conhecido Portugal, nossos colonizadores, que trocaram parcerias de espelhos e toalhinhas com os índios (sim, nessa época, a long long time ago, nossos indígenas do agora eram chamados assim).

Como pode eu nunca ter experimentado um típico bacalhau e o original pastel de Belém (que aqui é Pastel de Nata). E lógico que eu nunca poderia escrever um Tudo Sobre o Festival Indie Lisboa, com uma seleção mais independente de filmes, antes de vivenciar a atmosfera do lugar. Sim, ora pois. Talvez fosse isso que faltasse para reativar minha vontade de escrever. E está funcionando. Aos poucos. Lógico. Visto que não é tão fácil assim um platonista que estava naquela caverna se adaptar tão rápido à ressocialização. Na verdade, estou a mentir quando disse aqui, logo na linha acima, não se perca, leitor, que todo esse processo é pá-pum.

Pelo contrário, há um que enorme de autoantropologia, que atravessa todo vosso mar existencial. Estou a redescobrir o outro. Estou a (re)aceitar suas idiossincrasias. Estou a entender que, coitados, cada um também sofre como pode a (re)estar socialmente. E tenho que confessar que sou um sortudo, talvez tenha nascido com o cu virado para a Lua (sim, leitores, aqui em Portugal, não há suavizações para “bunda”, cu é cu mesmo), então a sorte é porque tenho amigos que me receberam como um Rei apesar de ser um Duque. É mais que necessário fazer um agradecimento enorme a Francisco Russo (um brazuca que já virou portuga), aquele mesmo crítico de cinema, que era um dos maiores do Brasil (era, pois ele disse que não sai desta terra lusófona de jeito nenhum), a sua querida patroa Monica Lacerda, a pequenina-princesa Julinha e até ao cãozão mais fofo do mundo Alzinho. Se não fosse por eles, minha viagem não seria tão perfeita e tranquila. Amo vocês!

Indie Lisboa

Dito tudo isso, paciência, caro leitor, já estou a entrar no assunto-foco da-cá, e já em Portugal, o Festival Indie Lisboa, que chega a sua edição 19, “de regresso à primavera”, acontece de 28 de abril a 08 de maio de 2022, de forma presencial em uma cidade mais vazia, mas não com público reduzido. Segundo os diretores do festival, Mafalda Melo, Carlos Ramos e Miguel Valverde, junto com o Comitê de Seleção da programação, o

“Indie Lisboa mostra essencialmente obras que se encontram fora do radar da regular circulação de filmes, moldada pela produção e exibição dominantes. Todos os anos, exibindo mais de 270 filmes, o festival atrai público e profissionais de cinema de todo o mundo, dando-lhes a oportunidade de descobrir filmes recentes de talentos emergentes e redescobrir autores de renome. As sessões do festival incluem ainda programas temáticos, que promovem o debate sobre assuntos relevantes, com o objetivo de apresentar uma selecção conceitual e geograficamente diversificada. Há ainda a retrospectiva que redescobre a realizadora Doris Wishman, figura de culto do cinema independente norte-americano e a primeira mulher cineasta a dedicar a sua obra à sexploitation feminina no cinema. Na secção Silvestre, o foco está na francesa Light Cone: para celebrar os seus quarenta anos, a distribuidora que promove e preserva cinema experimental de todo o mundo, apresenta em Lisboa alguns dos filmes do seu admirável catálogo, numa curadoria especial IndieLisboa.”

Mato Seco em Chamas

OS FILMES DO INDIE LISBOA 2022

A Competição Internacional, que mostra filmes que nunca foram exibidos comercialmente em Portugal, de novos realizadores (com até três obras), e finalizados no ano que decorre o festival, dá trabalho a trio de jurados, composto pela produtora romena Ada Solomon; pelo diretor artístico da New Horizons Marcin Pieńkowski; e pela autora de performances Patrícia Portela. O filme escolhido ao Grande Prémio de Longa Metragem da Cidade de Lisboa ganha 15.000 Euros. Já na Competição internacional de Curtas-Metragens conta no júri com a editora do Agora Cláudia Galhós; o realizador belga Jérémy van der Haegen; e pela programadora do Winterthur International Short Film Festival Laura Walde.

Os prêmios: Grande Prêmio de Curta Metragem ganha 4.000 Euros; o Prémio Melhor Curta de Animação,  500 Euros; o Prêmio Melhor Curta de Documentário,  500 Euros; e Prêmio Melhor Curta de Ficção, 500 Euros. A seleção conta com “Freda”, exibida no Festival de Cannes do ano passado; “Ghost Song”; “El Gran Movimiento” (também selecionado para o festival Olhar de Cinema de Curitiba); “How to Save a Dead Friend”; “Kim Min-Young of the Report Card”; “Mato Seco em Chamas”, este uma co-direção Brasil-Portugal, de Adirley Queiroz e Joana Pimenta, que tanto integra esta mostra, quanto a Nacional; “Medusa”, outro brasileiro de Anita Rocha da Silveira; “Pedro”; “Projeto Fantasma”; “Soy Libre”; e “Unrest”.Trio em Mi Bemol

Já na Competição Nacional, o júri, composto pela curadora de filmes Garbiñe Ortega; o crítico de cinema Massimo Causo; e o co-director da secção Forum Expanded do Festival Internacional de Cinema de Berlim Uli Ziemons, precisará escolher os melhores dentre os nove filmes selecionados: “Águas de Pastaza”; “Atrás dessas Paredes”; “Frágil – este que criou pauta aqui pelo discurso de catarse contra até mesmo o próprio festival IndieLisboa (leia ainda nesta matéria mais à frente); “Mato Seco em Chamas”; “Périphérique Nord”; “Rua dos Anjos”; “Super Natural”; “O Trio em Mi Bemol”; “Viagem ao Sol”. Sobre os prêmios, o de Melhor Longa Metragem Portuguesa ganha 5.000 Euros; o de Melhor Realização para Longa Metragem FCSH, 1.000 Euros; o de Dolce Gusto para Melhor Curta Metragem Portuguesa, 2.000 Euros; e o de Novo Talento The Yellow Color,  1.500 Euros.

Na sessão Novíssimos, a sessão competitiva é constituída por um “conjunto de filmes de jovens cineastas que estão a dar os seus primeiros passos. Alguns realizaram o seu filme em contexto escolar, outros foram destemidos ao ponto de realizarem sozinhos uma primeira obra, independentemente de qualquer apoio. Portugal continua a afirmar novas vozes no contexto cinematográfico que querermos apoiar e mostrar”, informa o festival. O Júri é composto pelo artista Gonçalo Lamas; o ator João Nunes Monteiro; e desenhista Marta Sousa Ribeiro. O Prémio Novíssimos Betclic ganha 1.500 Euros + promoção e venda Portugal Film.

A mostra Silvestre seleciona “obras de jovens cineastas e autores consagrados, esta sessão encontra na singularidade a sua norma. Mostramos, sob a asa de Silvestre, obras que rejeitem fórmulas consagradas, que despertem novas linguagens e cuja rebeldia espelhe o espírito do festival” e seu júri é composto pelo fotógrafo André Príncipe; a pedagoga Mariana Liz; e crítica de cinema chilena Vanja Milena. O Prêmio para Melhor Longa Metragem ganha 1.500 Euros. Já na Silvestre Curtas-Metragens, o júri conta com Julian Ross; Morgan Quaintance; e Théodora Barat. Há o foco também na francesa Light Cone: para “celebrar os seus quarenta anos, a distribuidora que promove e preserva cinema experimental de todo o mundo, apresenta em Lisboa alguns dos filmes do seu admirável catálogo, numa curadoria especial IndieLisboa”.

Cesária Évora
Cena do filme “Cesária Évora”, da realizadora Ana Sofia Fonseca. Longa está na mostra IndieMusic  — Leia a crítica aqui

No IndieMusic, a “ligação entre o cinema e a música está no epicentro desta secção competitiva. No IndieMusic abraçamos filmes sobre músicos e bandas de todo o mundo, mergulhando não raras vezes nos contextos históricos, políticos e sociais que acompanham as movimentações musicais. Estas pequenas revoluções encontram um espelho no programa nocturno de concertos e festas, o IndiebyNight”, informa o festival. Na seleção, destaques para os filmes “Cesária Évora”, “Nothing Compares”, “Patti Smith, Electric Poet” e “A Escuta”, da realizadora portuguesa Inês Oliveira.

E a sessão IndieJunior, “fundamental do IndieLisboa, é dedicada aos espectadores mais novos. Visa contribuir para a formação estético-cultural de crianças e jovens através de uma experiência artística e lúdica diferenciada do seu habitual consumo de imagens em movimento, seja na televisão ou no circuito de cinema comercial. A programação de filmes é complementada por um conjunto de ateliês, atividades culturais e espaços de criação pensados para os mais pequenos, as famílias e as escolas”.  A sessão de “Freda”, por exemplo, filme exibido na mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes 2021 (um ano complicado, visto que entrada de brasileiros não estava permitida), foi parte do Cineclube do Indie Lisboa convidando alunos.

A Viagem de Pedro
Cena do filme “A Viagem de Pedro”, da realizadora Laís Bodanzky. Longa encerrará o Indie Lisboa 2022  — Leia a crítica aqui

A cobertura do Indie Lisboa pela imprensa brasileira vem deste crítico que vos fala do Vertentes do Cinema; de Elaine Guerini, do Jornal Valor Econômico; de Myrna Silveira Brandão, do Jornal do Brasil; e de João Moris, do Grupo Cinema Paradiso, que já se tornou um amigo (Muito obrigado por toda a ajuda em “mastigar” Lisboa para mim!). A sessão de abertura exibiu os filmes “Albufeira” e “Zéfiro”. E a de encerramento será em grande estilo e com cinema brasileiro: “A Viagem de Pedro”, de Laís Bodanzky, contará com o ator-protagonista Cauã Reymond e equipe na Gala.

Cada cinema aqui tem suas particularidades. O Indie Lisboa acontece em quatro lugares, nos cinemas Culturgest (sede do festival), Cinema São Jorge, Cinema Ideal e Cinemateca Portuguesa, todos práticos e com estações de metrô próximas). Todas as sessões respeitam seus filmes. As luzes do cinema acendem apenas após o último crédito. Algumas aguardam até mesmo alguns segundos depois para não serem pegas de surpresa. E não podemos deixar de destacar que a arte traz o característico pássaro, referência e inspiração ao festival brasileiro Semana dos Realizadores, que agora mudou seu nome para Semana de Cinema.

Assim, depois de turbulências e algumas confusões mentais por causa do fuso horário, estou a começar oficialmente a produção textual sobre o festival  de cinema mais independente de Portugal.

As considerações finais desse Tudo Sobre o que está a acontecer no Indie Lisboa não poderia deixar de fora um panorama das melhores e piores obras em exibição. Ora pois. Muitos filmes começam fixe (palavra portuguesa que traduz o nosso maneiro e/ou massa) e decaem ao longo da projeção. Foi o que aconteceu com o indiano “Pedro”, de Natesh Hegde, que inicia com status de masterpiece, mas infelizmente insere “barrigas” demais. Até agora, os melhores, disparados e empatados são o português “Trio em Mi Bemol”, de Rita Azevedo Gomes; e o vietnamita “The Girl From Dak Lak”, de Mai Huyền Chi e Pedro Roman.

Já o filme “Frágil”, de Pedro Henrique, nos faz pensar quanto é frágil essa nova geração, conceituada popularmente como Nutella (um disparate! O creme de avelã foi inventado com o real propósito da felicidade), e que eu chamo de Geração Tofu (sem graça e não alimento – sim, queridos veganos não me cancele por favor, recupere a utopia da liberdade). Quanto essa nova geração existe pela superfície, por bolhas individuais-egoístas, que se retroalimentam de outras bolhas-egoístas.

Sim, preciso confessar que poucas palavras não conseguem traduzir todos esses comportamentos sociais. Mas qual o motivo de ter gasto um parágrafo inteiro a falar de um filme que não despertaria interesse algum? Então, tudo ganhou proporção midiática por causa do discurso de apresentação, um “protesto-performance contra o cinismo na competição dos festivais” (escreveu Joana Oliveira, na Timeout Lisboa) na primeira sessão do filme, “com duras críticas ao Instituto do Cinema e do Audiovisual (ICA), à Escola Superior de Teatro e Cinema (ESTC) e ao próprio IndieLisboa”.

“Se este filme se fez foi graças à disponibilidade da própria malta que trabalha em cinema, que vive à base de favores e entreajuda”, gritou em palco um amigo do cineasta, que leu o longo discurso do cineasta João Eça, que assina Luís Calado e agora usa o o pseudônimo de Pedro Henrique, um “acusador de festivais”, entre vaias e aplausos. E ainda disse que se o filme for vencedor, o prêmio será recusado (“Não quero competir, principalmente contra os meus amigos e colegas de profissão”).

Caros, desculpa, mas não há a mínima possibilidade disso acontecer. Vai por mim! Mas o assunto explodiu tanto que até mesmo um dos diretores e programadores do Indie Lisboa, Miguel Valverde, precisou se manifestar. Só que “más línguas antenadas” e de dentro da equipe afirmam que o “burburinho” foi orquestrado como um “oportunismo”. A fala inflamada não poupou ninguém, nem o próprio Indie Lisboa. Foram facas e vidros por todos os lados. Mas quem pode julgar? O marketing dessa obra encontrou uma forma de divulgação. Está errado? Como resolver? Desculpa, retóricas demais sobre o nada.

Agora sim, depois de tudo isso da parte um, convido os leitores (norma culta da língua portuguesa – daqui e daí) a acompanhar minhas percepções lusófonas, críticas, matérias e vídeos. Muitas matérias virão. Fique giro!

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