A Viagem de Pedro

A perda de sanidade e a impotência histórica

Por Vitor Velloso

Durante o Festival do Rio 2021

A Viagem de Pedro

Em uma representação pela loucura de Pedro durante a viagem de retorno à Europa em 1831, “A Viagem de Pedro” é um filme que procura compreender o psicológico de seu personagem através de suas frustrações, desejos, ambições, conflitos políticos e todo o contexto que marca seu protagonista. O grande desafio de Laís Bodanzky é trabalhar com uma figura histórica de contradições tão gritantes, na medida que sua humanização traz à tona uma série de debates em torno de preconceitos, sincretismos e relações de poder. Por aproximadamente uma hora e meia, o espectador se vê diante de uma obra que oferece poucas questões interessantes para se apegar durante a projeção, um excesso de temáticas que são tocadas na superfície e uma tentativa de relativizar uma figura histórica na medida que sua aproximação com a loucura é o sincretismo que marca parte da formação social brasileira.

Está certo que o filme não se propõe à representação próxima da realidade, longe disso, trata-se de um mergulho nas características mais íntimas de seu personagem, o problema é que o trato da imagem de Pedro como um homem que passa a delirar junto com sua impotência e a necessidade de liderança para resolução de um confronto político-familiar, torna-se um martírio de paciência e o curto tempo de projeção parece uma eternidade. Poucas coisas são mais prolixas quanto “A Viagem de Pedro”, girando em torno do ego catalítico de seu protagonista. Não por acaso, todos ao redor de Pedro são meras figuras que estão a seu serviço, mesmo que para contrapor sua aparente dominância diante de todos presentes no navio, como é o caso do personagem de Sérgio Laurentino. O subaproveitamento de diversos atores como Laurentino, Isabél Zuaa, Gustavo Machado e Victoria Guerra é a grande tentação para centralizar D. Pedro I e Cauã Reymond em uma imortalização desta grande peregrinação. Mas não existe brilho aqui, pelo contrário, a decadência impera nos cenários de orçamento elevado e recursos formais que tentam dialogar com o frenesi de uma mente doente. Desta maneira, Bodanzky tenta saltar os olhos do espectador para as distorções, efeitos sonoros e atravessamento espaço-temporais (com a montagem saltando os momentos sem nenhum tipo de contextualização).

Esses recursos são pouco eficazes diante de um projeto que parece tão perdido quanto seu protagonista, mas acredita que é possível sustentar tantas ambições confusas em si, com a expansão da perspectiva histórica para uma representação que ostenta esse caos narrativo como parte dessa perda de sanidade. A verdade é que a estrutura de “A Viagem de Pedro” é fragmentada não apenas por esse frenesi, mas pela falta de rigor em suas próprias temáticas. Um exemplo disso é como o filme força a transição histórica e os conflitos políticos na tão comentada cena em que Pedro se consulta com o chef do barco. Essa necessidade de procurar um diálogo do contexto com alguma proximidade contemporânea, principalmente na maneira com que a narrativa articula a cena, no envergonhado fetichismo do conflito, marcado pela marginalização espacial do próprio rito, é a demonstração de um filme que se desespera com a representação entre os tempos.

Se o maior mérito do longa é conseguir uma caracterização que consiga convencer da grandiosidade do período e relacionar o monumento imperial com a mente em degradação e a doença se apoderando do íntimo de seu protagonista, fica claro que pouca substância sobra de toda sua pretensão inicial. No fim, “A Viagem de Pedro” reforça que a Laís Bodanzky parece se manter entre a nostalgia política que marcou o início de sua carreira e a necessidade de conectar a mesma percepção ao mercado cinematográfico de maneira mais ampla. Falhando de todos os lados, o filme acaba tornando-se uma arrastada experiência onde o conteúdo fálico se confunde com o ego e a maior memória é Pedro se perguntar como poderá vencer uma guerra sem levantar a pipa.

Trailer

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