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Cesária Évora

Ave, Cesária

Por Bernardo Castro

Durante o É Tudo Verdade 2022

Cesária Évora

Uma das maravilhas que o Festival É Tudo Verdade proporcionou foi o filme “Cesária Évora”. Dirigido por Ana Sofia Fonseca, o documentário, que contém gravações inéditas e diversos depoimentos de amigos e familiares, celebra a vida e a obra de uma das maiores cantoras do continente africano e, certamente, a maior cantora cabo-verdiana da história. Reverenciada recentemente pelo cantor belga Stromae, talvez o maior expoente da francofonia no cenário musical atual, ela foi responsável por levar a morna, declarada Património Cultural Imaterial da Humanidade pela Unesco, do Mindelo para os palcos ao redor do globo.

É imprescindível entender a história recente de Cabo Verde para entender a cantora, como se ambos fossem indistinguíveis. Pelo passado colonial, o pequeno país insular assumiu o papel de nação marginalizada relegada ao ostracismo. A cantora não só tornou o nome do país conhecido, mas também deu ao povo cabo-verdiano um sentimento de orgulho patriótico e consolidou uma identidade nacional – há uma determinada passagem, inclusive, onde uma pessoa é indagada a respeito de Cabo Verde; ela alega não conhecer o local até ser informada da relação com Cesária Évora. Não só para seu povo, como para o continente africano, que ganhou uma superestrela para chamar de sua. Ela foi uma das poucas cantoras africanas a conquistar espaço nas pautas internacionais, quebrando o padrão pré-estabelecido na indústria, que ansiava por mais uma cantora magra, loira de olhos azulados.

No geral, “Cesária Évora” encanta o espectador médio com os momentos de descontração registrados em vídeo, o sucesso alcançado, as paisagens idílicas pequena ilha de São Vicente e as turnês pelos maiores polos econômicos do mundo. No entanto, existem alguns problemas relativamente sérios de edição e na forma como a história é apresentada, uma vez que uma parte considerável do material é inserido ao léu e sem acrescentar muito a ideia, quando não é posicionado fora da cronologia ou do contexto do ato. Sente-se como se o filme se perdesse com alguns devaneios pontuais e escapa à cronologia ou à narrativa que vinha sendo construída em alguns breves momentos.

Para a alegria do público brasileiro, o filme ainda conta com as participações especiais de Seu Jorge e Marisa Monte, que tiveram o enorme prazer de conviver minimamente com Cesária antes de sua trágica morte em 2011. Dotada de uma voz etérea e de um timbre inigualável, a cantora teve uma trajetória difícil. “Cesária Évora” acata com a incumbência de mergulhar profundamente na psique da protagonista e a examinar minuciosamente os percalços ao longo pelos quais sua trajetória foi se enveredando. Entende-se, por exemplo, o exagero que ela tinha com comida, algo que sempre faltou em sua infância. Por isso, a artista usou de seu sucesso e de sua influência para alimentar as pessoas em situação de vulnerabilidade social de sua terra.

Ao retratar a vida em turnês, a obra cadência bem o ritmo intenso das viagens, com cortes rápidos e a narração apressada da empresária da artista. É, de fato, um choque para os que não tinham noção do tamanho sucesso atingido por Cesária Évora. Com excertos de entrevistas no Letterman, colaboração com Compay Segundo, um dos maiores cantores da história de Cuba, os shows lotados e relatos de fãs das mais diversas nacionalidades demonstrando sua admiração.

Se prestando a realizar um estudo de personagem, o documentário não se isenta de mostrar a dualidade da pessoa por trás da figura pública, retratando sem muito viés os problemas do alcoolismo e as graves crises de depressão que ela teve, principalmente no final de sua vida. Em seus instantes derradeiros nesse plano, como mostrado no trabalho, ela se recusa a seguir as recomendações médicas. Essa negligência tem um preço e, fatalmente, acaba em tragédia.

Nas últimas cenas de “Cesária Évora”, tem-se um vislumbre do futuro e o impacto positivo que a diva dos pés descalços teve na comunidade onde ela morava. É mostrada uma sequência de planos relativos ao carnaval de rua no Mindelo, onde sua neta é porta-bandeira do bloco. Legado este que transcende o campo da música, por suas ações humanitárias que abraçaram uma gama incomensurável de pessoas com necessidades e serviram de lição para seus entes queridos. Que sua voz ecoe nos corações dos fãs e dos amantes de música pelas próximas gerações.

3 Nota do Crítico 5 1

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