Crítica: Tio Boonmee, que Pode Recordar Suas Vidas Passadas

Por Fabricio Duque

Ficha Técnica

Direção: Apichatpong Weerasethakul
Roteiro: Apichatpong Weerasethakul
Elenco: Sakda Kaewbuadee, Matthieu Ly, Vien Pimdee, Jenjira Pongpas, Thanapat Saisaymar
Fotografia: Yukontorn Mingmongkon, Sayombhu Mukdeeprom
Figurino: Chatchai Chaiyon
Edição: Lee Chatametikool
Produção: Apichatpong Weerasethakul, Simon Field, Keith Griffiths
Distribuidora: Filmes da Mostra
Duração: 114 minutos
País: Tailândia/ Reino Unido/ França/ Alemanha/ Espanha
Ano: 2010
COTAÇÃO: MUITO BOM

A opinião

Entender a mente criativa e experimental do diretor tailandês Apichatpong Weerasethakul é necessário embarcar em seu universo de planos longos e contemplativos. Ele deseja mostrar o habitual, a normalidade das ações cotidianas – beirando a atmosfera de um mundo budista. Então imprime o realismo temporal na narrativa escolhida. Em “Mal dos Trópicos”, um dos filmes anteriores, – ganhando o Prêmio do Júri, no Festival de Cannes – ele aborda a lenda de um homem que pode se transformar em um animal selvagem e quando se acredita, o mito pode se tornar realidade. As tradições – lendas, espíritos, fantasmas, reencarnação (vidas passadas) – estão presentes e recorrentes em seus filmes. A vida simples – o almoço, as conversas no emprego, os silêncios imperativos, abrir o vidro de um automóvel – torna-se um personagem, com poder de transformar e induzir ideias e anseios. Em seu novo projeto, “Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas”, Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2010, Apichatpong conserva o seu estilo e crenças. O longa foi consequência de um curta-metragem – Inspirado no livro A Man Who Can Recall His Past Lives -, chamado “Uma Carta Para o Tio Boonmee”, que de dentro de uma cabana, numa aldeia qualquer do país, passa-se a ver o mundo exterior e próximo na velocidade e com o olhar sempre particular ao diretor e a seus “espíritos” (prontos a reencarnar, como reza a tradição de sua religião).

Nesse contexto, uma carta pessoal do diretor descreve a cidade de Nabua para seu Tio Boonmee. Uma câmera em lento movimento desliza pelas casas desertas. As vozes de três rapazes são ouvidas. Conforme a noite se aproxima, o céu escurece. A metalinguagem do curta humaniza e personifica o personagem principal. No longa-metragem, Tio Boonmee (Thanapat Saisaymar) – autobiografia do futuro ou mera ficção – sofrendo de insuficiência renal, resolveu passar os últimos dias de sua vida recolhido em uma casa perto da floresta, ao lado de entes queridos. Durante um jantar com a família, o espírito de sua esposa falecida aparece para ajuda-lo em sua jornada final. A eles se junta Boonsong, filho de Boonmee, que retorna após muito tempo metamorfoseado em outra forma de existência. Juntos, eles percorrerão o interior de uma caverna misteriosa, onde Boonmee nasceu em sua primeira vida. O inicio mostra a vida de um animal, um índio, um ser escuro com os olhos vermelhos, isso fornece a abertura da trama. Em outro momento, um carro anda. Percebe-se que a direção é uma fazenda.

Com a iminência da morte, Tio Boonmee resolve “pendências” de sua vida para que com isso possa limpar a sua alma. A ele foi permitido a companhia e a conversa de familiares – incluindo fantasmas holográficos. A explicação não acontece. Mas se pode inferir a uma alucinação da doença. Entendemos que a criatura – meio macaco – ficou tão obcecado por esta espécie que acabou se tornando uma. É a metáfora da sociedade. Os ruídos crescentes simbolizam os medos de uma noite escura e chuvosa, por exemplo. A fotografia bucólica remete a espera de um lugar que nada acontece. Tio Boonmee faz diálise. Outros procuram mel local e usam protetor solar. A simplicidade é total, mas não simplista. “Culpa dos meus camaradas comunistas, mas com boas intenções”, diz-se. Em outro momento, há uma rainha indiana, que diz “a forma que você vê é ilusão”, copula com um bagre falante. O realismo fantástico transmite a crítica – ingênua e sutil – politica. As cavernas, guerrilheiros, fotos, o monge budista que não consegue viver no monastério – porque sente falta de televisão, celular e banho quente – transpassam a ideia da metáfora de se estar em um lugar desejando estar em outro. Recordar as passadas liberta e faz com que o próximo passo da existência seja em paz. Concluindo, um excelente filme que merece ser visto. Recomendo.

O Diretor

Apichatpong Weerasethakul nasceu em Bangkok, 1970) é um diretor de cinema independente tailandês. Criado em Khon Kaen, no nordeste da Tailândia, é licenciado em arquitetura pela Universidade de Khon Kaen e obteve um mestrado em Belas Artes na School of the Art Institute de Chicago. Em 1999 fundou Kick the Machine, uma companhia que se dedica ao fomento do cinema experimental e independente. O seu filme Lung Boonmee raluek chat (em inglês Uncle Boonmee Who Can Recall His Past Lives, que quer dizer O Tio Boonmee, que Recorda as Suas Vidas Passadas) foi o ganhador da Palma de Ouro do Festival de Cinema de Cannes de 2010.

Filmografia

2000 – Mysterious Object at Noon (Dokfa nai meuman)
2002 – Blissfully Yours (Sud sanaeha), Prêmio Cannes Un certain regard
2003 – The Adventure of Iron Pussy (Hua jai tor ra nong)
2004 – Tropical Malady (Sud pralad) (2004), Prêmio do júri do Festival de Cannes
2006 – Syndromes and a Century (Sang sattawat)
2010 – Tio Boonmee, que Pode Recordar Suas Vidas Passadas
2011 – Utopia (em produção)

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    Ótima crítica. E olha q é difícil expressar p/o público em geral a relevância deste filme — q pode parecer pernóstico e cansativo de longe, mas revela muito a se descobrir p/quem lhe dá 1 chance.

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    Eu curti a viagem do diretor.

    A cena inicial puxa a curiosidade, mas é na mesa de jantar que o filme se fez pra mim. A chegada da mulher fantasma, a inveja da cunhada, o filho-bicho-papão… fantasia poética =) Mas a relação desses personagens fantásticos com o "tio" é natural e aos poucos os demais vão absorvendo, até que começam a interagir naturalmente.

    Existem momentos em que eu não sabia se ria ou se fechava a boca… qdo ficava com cara de "hein?", como na cena do bagre tarado. Tudo pela beleza interior ehehhe.

    Termina mostrando outra realidade, se é que dá pra ser chamada assim. Nesse momento entra a "projeção astral" ou algo que se assemelhe. Liberando os personagens de suas realidades e transportando-os para o caminho dos seus desejos.

    Pra mim esse foi um filme de poesia subjetiva e aparente loucura, mas é legal =)

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