The Rhythm Section

As contas...

Por Vitor Velloso

“The Rhythm Section” de Reed Morano é um dos longas que se encaixam na definição de “vindo da máquina de xerox”, sendo um absoluta representação dos clichês que a indústria vêm utilizando ao longo dos anos e tentando emplacar uma nova força para o cinema de ação com protagonistas femininas. Mas a função mimética industrial é tão aguda que torna-se um desafio encontrar o entretenimento aqui. Uma breve olhada nos produtores envolvidos nos mostra que tipo de filme estaremos consumindo: Barbara Broccoli (produziu os últimos “007”), Greg Shapiro (“Detroit” e “Calmaria”, sempre tentando achar o meio-termo para premiações e cifras), Stuart Ford (“Silêncio”(2016) e “Calmaria”).

Esses nomes com a breve apresentação de alguns trabalhos geram a síntese de “The Rhythm Section”, o longa quer ser uma espécie de “007”, mas com uma linguagem que tenta se aproximar do gosto da burguesia dos festivais de cinema da grande indústria, o take único na perseguição de carro dá muito esse tom para alguma premiações possível. Em verdade, todas as aproximações que o filme faz com algum tipo de abordagem no campo dramático, intermediado diretamente pela misancene, são falhas e acabam soando forçadas no “organismo” de clichês articulados. O que acaba reforçando todos os arquétipos do gênero que se encontra em decadência moral absoluta.

O “plot” é similar aos piores episódios de uma série de TV com baixo orçamento e a narrativa é preguiçosa, desinteressante, possui uma narração em off que é absolutamente descartável em todos os momentos em que ocorre, servindo apenas de tom expositivo para questões pragmáticas de combate no futuro, atuando como mimesis da própria ideia e enfraquecendo os “belos planos” de Sean Bobbitt, que se encontram inócuos aqui. Tudo é regido por uma completa falta de consciência da forma como ação desse suposto conteúdo. Tudo isso vai transformando a obra em uma monotonia degradante, que passa a dialogar politicamente com os piores setores dos conservadores cinematográficos, que insistem em uma manutenção dos clichês para uma reformulação de sua representação.

A questão do treinamento na narrativa, tenta auxiliar algumas tomadas de decisão da produção para prêmios de fotografia, mas se esvazia conforme busca força nos planos ao tentar estetizar toda o pressuposto de violência que permeia a obra. O próprio esqueleto da narrativa é abandonado para que possamos ver Jude Law e Blake Lively atirando em alvos, em paisagens supostamente bonitas. E toda essa pretensão de uma conciliação, típica dos revisionistas reacionários, entre a “arte” e o “comercial” passa a nortear “The Rhythm Section” até sua reta final, que se abarca a confusão generalizada, já instaurada em menos de meia hora. Reed Morano parece estar preocupado com suas inserções de cifras na tela, sem uma preocupação em como essa construção é prejudicada e potencializada na montagem de Joan Sobel, que já possui uma carreira repleta de pataquadas e fragilidades.

Se nem tudo é terrível, devemos creditar os esforços de Lively, que tenta a todo custo salvar a produção e redirecionar a própria carreira. A interpretação está longe de ser brilhante, mas a atriz condensa uma forte energia para criar algum amparo para as pataquadas da obra. Jude Law segue destroçando seus trabalhos para ser o “velho bonito e charmoso, sempre em forma” e continua sonso como sempre.

O trailer é uma venda de ideias de como o filme poderia funcionar se assumisse por completo as características de seu gênero, sem se render a formalismos tacanhos para angariar alguma premiação. Soa direto, decisivo, pragmático, mas na prática o que temos são frases de efeito, exposição excessiva, tentativas de dramatizar em torno do eterno fetichismo da indústria e capitalização a partir dos clichês criados pela própria engrenagem. Trata-se, sem dúvida, de uma retroalimentação, consciente de suas fragilidades, mas que precisa somar alguns dólares e libras para fomentar o “desejo” de fazer cinema de seus produtores, ou podemos creditar a paixão cinematográfica em “The Rhythm Section”?

A maior questão a ser compreendida pelo espectador durante sua projeção, está justamente na abordagem do projeto. Como a expectativa da experiência vai se moldar? Pois aquilo que se vende, é exatamente aquilo que se entrega, mas o trailer sabe dinamizar suas imagens.

Trailer

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