Tentehar: Arquitetura do Sensível

Síntese dialética

Por Vitor Velloso

Durante o Fest Aruanda 2020

“Tentehar: Arquitetura do Sensível” de Paloma Rocha e Luís Abramo é uma obra que transa com “Antena da Raça“, um barato entre o debate das eleições de 2018 e um Brasil que se perdeu na peçonha da burguesia. O filme busca relações entre os verdadeiros donos da terra e como o atual governo busca extirpar os laços culturais presente no Brasil, afim de importar as ideologias da burguesia internacional e quem sabe, formalizar uma venda absoluta de todos nossos bens, materiais e imateriais.

Neste ponto, o documentário consegue transitar entre seus objetos: a seita de eleitores, os que votaram a partir da desesperança, os indígenas que lutam pela sua sobrevivência e dos conscientes que reconhecem o perigo. O problema é que essa costura é frágil e alguns saltos na estrutura não conseguem acompanhar as intenções da obra, transformando essa colcha de retalhos em uma breve confusão dentro de suas questões internas. Porém, esses saltos aparentemente desorganizados conseguem dar ritmo para a obra em torno de sua multiplicidade e de uma verve digressora por não respeitar a construção classicista de parte do documentário contemporâneo.

E esse impulso explosivo da obra, em querer consumir essas diferentes frentes de um mesmo Brasil, se vê ancorada nessa necessidade de um retrato diverso, que precisa ir de encontro aos fronts, o que gera um trabalho antropológico interessante, em especial os planos com os motoristas de aplicativo. Desta maneira, esse sincretismo característico do Brasil e as formulações de um povo brasileiro a partir do centralismo da representação burguesa, se vê dividido na dicotomia democrática. Essa escolha é feita por classes distintas, mas encabeçada pela classe dominante. E neste ponto “Tentehar: Arquitetura do Sensível” conjuga verbo e forma em compreensão materialista desse debate política que formaliza a porta giratória da democracia, sempre girando ao lado mais forte. Florestan avisou.

A infelicidade no debate das políticas públicas no Brasil é não entender que o subdesenvolvimento e a dependência nos transforma em “país pobre”, independente de questões ideológicas, existem países socialistas ricos e pobres, capitalistas ricos e pobres, a síntese é o rico e pobre. Sintetizou Glauber, pessimamente transcrito aqui.

Na contramão do que dizem, Paloma não busca apoiar-se no pai, possui uma característica particular própria, que ao lado de Luís Abramo constroem uma parceria frutífera, que rende dois longas em um ano. Porém, é necessário lembrar que a cineasta possui uma trajetória ampla e madura no cinema. Assim, algumas escolhas na montagem, como os saltos citados, que parece desconexos, são feitos em um misto de inquietação de uma brasileira e esse rigor em retratar uma complexidade que abarca a América Latina e a brasilidade em si. Por razões como essa, “Tentehar: Arquitetura do Sensível” se conscientiza em abrir o pindorama para sua própria realidade, expondo um pensamento que não se encontrava inerte no Brasil, mas estava às margens da situação.

O longa não abre uma janela de diálogo necessariamente nova, mas consegue dar um ar diferente para aquilo que estamos vivendo cotidianamente. E sua contribuição ao estar junto aos Guardiões é notória, visto que existe um processo de apropriação material e imaterial de nossas riquezas. A burguesia progressista se ergue ao falar “é nossa”, contra o imperialismo, mas levantará a mão direita para impedir que haja manutenção do território indígena. É de uma hipocrisia tacanha, vulgar e arrogante.

Por essas razões, o filme de Paloma Rocha e Luís Abramo é um breve respiro na cinematografia brasileira, pois não trabalha com a representação de um Brasil, mas busca gerar um debate sobre o mesmo. Não faz uma análise crítica, mas expande para tal. Acaba caindo em pequenas armadilhas de sua estrutura, oscilando entre aquilo que deseja e o que está ao alcance, talvez mais material e um tempo mais dilatado fosse necessário para a ambição aqui. Inclusive, adoraria ver um Antena da Raça casando com Tentehar, ia dar um barato doido. Fica o desejo, desafiador.

Aos leitores que se apegaram aos problemas expostos, não o façam, assista com a bagagem exterior necessária.

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